Clariceando pelo Rio

O Rio de Clarice Lispector

Por Aline Montenegro Magalhães

Enfim, chega a nossas mãos os caminhos percorridos por nossos pés pela cidade do Rio de Janeiro, com Teresa Montero, atriz, professora e biógrafa de Clarice Lispector. É com muita alegria que meus olhos divagam pelas páginas de “O Rio de Clarice: passeio afetivo pela cidade”, escrito pela idealizadora do projeto de mesmo nome, que nos oferece um olhar especial para a cidade, um olhar pelas lentes da vida e da obra de Lispector.

Da Tijuca ao Leme, verdadeiras aulas a céu aberto. Em percursos embalados por música, poesia e dramaturgia, somos provocados a olhar as ruas e os edifícios com afetividade, tendo por fio condutor as vivências e os escritos clariceanos nesses lugares e sobre eles. 

São mais de 180 páginas de um roteiro ilustrado com mapas e fotografias no qual a história da cidade se enlaça com a trajetória dessa escritora que não apenas viveu no Rio, mas também utilizou vários de seus endereços como inspiração e tema de seus romances e contos.

Ao abordar o Jardim Zoológico, por exemplo, Montero nos oferece o trecho do livro “A hora da estrela”, no qual Macabéa e Olímpico visitam o lugar, bem como parte de uma entrevista concedida por Lispector ao Pasquim:

“Sérgio Augusto –  Você concorda em que bicho é melhor do que gente?

Clarice – Domingo eu fui ao Jardim Zoológico. É uma coisa maravilhosa […]

Jaguar – Qual o bicho que você curtiu mais?

Clarice – A girafa.” p. 26.

A cada página lida, a cada foto de Daniel Ramalho admirada, mais aumenta a vontade de fazer e refazer os percursos pela cidade e também pelo universo literário clariceano. Pois a leitura do livro nos leva a viajar  no tempo e no espaço de Lispector: quando migrou para o Brasil, quando ingressou na faculdade de Direito da então Universidade do Brasil (Atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), quando iniciou sua vida profissional como repórter do Jornal A noite, quando se casou, teve filhos, escreveu e publicou seus livros e crônicas. 

O livro também nos permite conhecer os frutos do movimento de valorização da memória clariceana na cidade, capitaneado pela própria Teresa Montero no âmbito de seu projeto. Pois, conhecendo a importância dos monumentos para a cidade e seus cidadãos a partir do legado clariceano, várias foram as iniciativas voltadas para a defesa do patrimônio público representativo das relações da escritora com a cidade. E nesse sentido, a autora não apenas dialoga com o campo do patrimônio, como promove ações, a exemplo da campanha que resultou na estátua de Clarice e seu cão Ulisses no Leme, produzida por Edgar Duvivier e na gravação de frases em bancos do “Espaço Clarice Lispector” do Jardim Botânico.

Ao final do livro somos presenteados com a entrevista que Montero concedeu à jornalista Vera Barroso. Ali, temos a oportunidade de conhecer a história de “O Rio de Clarice”, como a leitora e biógrafa de Lispector idealizou os roteiros pela cidade concebendo um Rio clariceano e quais são as motivações e desafios de um projeto que conta mais de dez anos.

Enfim, foi um prazer caminhar pelas páginas de “O Rio de Clarice”. Certamente, farei os percursos mais vezes me perdendo e me encontrando nesta “cidade que ainda é maravilhosa”, com Teresa, com Clarice e com afeto. Leitoras e leitores estão convidados! 

MONTERO, Teresa. O Rio de Clarice. Passeio afetivo pela cidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.  

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