NDÊ! – Trajetórias afro-brasileiras em Belo Horizonte

Por Aline Montenegro Magalhães

Neste dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, o Exporvisões recomenda fortemente a visita à exposição “NDÊ! Trajetórias afro-brasileiras em Belo Horizonte”, em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto. Inaugurada há um ano, no contexto das comemorações dos 75 anos do museu da cidade, seu encerramento está previsto para novembro de 2020.

Expressão em Kimbundu, Ndê! Significa “Anda! Caminha! Vá sem receio!”. Aqui a entendemos como um mantra a impulsionar as vivências de africanas/os e afro-brasileiras/os representadas em cerca de 300 objetos. A compreendemos também como uma palavra de encorajamento das curadoras Josemeire Alves e Simone Moura para contarem histórias de negras e negros que viviam na região antes mesmo da existência de Belo Horizonte,  construíram a moderna cidade em finais do século XIX, atuaram e ainda atuam na cidade, mas tiveram seus corpos alijados do espaço urbano e suas memórias silenciadas pelas narrativas oficiais, que conformaram a memória histórica da capital de Minas Gerais.

O espaço não é grande, mas é muito bem aproveitado. Circulamos entre textos explicativos e vitrines com objetos, documentos textuais e fotografias. Em vários momentos, nos detemos em frente a monitores onde são projetadas a voz e a imagem de mulheres e homens afrodescendentes, que narram suas vidas, sublinhando suas atuações no universo do trabalho, nas lutas por direitos, nas festas e religiosidades, bem como no ambiente da casa e da família. Trajetórias marcadas pela força da (re)existência em uma sociedade na qual o racismo gera desigualdades e injustiças.  

A precariedade das relações trabalhistas, uma marca da presença de negras e negros na sociedade do pós-abolição, é denunciada em ferramentas utilizadas por profissionais fundamentais na vida cotidiana, porém mantidos à margem da formalidade, como marceneiros, pedreiros, costureiras e agricultores. Destaque para a cama da empregada doméstica no interior de uma vitrine, símbolo da herança escravocrata de subalternização da mulher negra. Mobiliário que integra um cômodo à parte das “casas [e apartamentos] grandes”, espécie de “senzala contemporânea”, como bem escrito no recém lançado catálogo do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos – MUQUIFU, do qual a cama em questão é acervo e parte de uma exposição.

Cama do quarto de empregada
Cama de empregada, 1992. Pertenceu à Justina Dias Ferreira que a recebeu de presente de sua patroa, doando-a posteriormente para o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos – MUQUIFU. Ali integra cenografia do núcleo expositivo “Doméstica, da escravidão à extinção: uma antologia do quartinho de empregada no Brasil”, de curadoria compartilhada entre as Domésticas do Aglomerado Santa Lúcia, Cidinha da Silva e Samanta Coan. Segundo consta na página 46 do catálogo “Habemus Muquifo”, “A Cama da Empregada fala de noites silenciosas, corpos violados, saudades sufocadas, trabalho escravo, exploração e humilhação… mas fala, também de mulheres que não desistiram, que se armaram para a luta em busca de garantir que suas filhas não ocupassem mais esses lugares”. O sonho da ascensão via estudos, que muitas domésticas e filhas de doméstica conquistaram, está representado pelos canudos sobre a cama. FOTO: Aline Montenegro, agosto de 2019.

 

Aos “ecos da escravidão”, conforme escrito em um dos textos da exposição,  são contrapostos os gritos de negras e negros que se destacaram em profissões geralmente ocupadas por brancos, no esporte e nas artes. Que lutam na militância política junto ao Movimento Negro, que organizam festas mantendo a tradição de sua ancestralidade e praticam sua fé no culto aos orixás e também nas irmandades católicas, como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Jornalista Lena Santos
Lene dos Santos 
Segunda metade do século XX.
Acervo: Zora Santos
A jornalista foi fotografada no programa de notícias em que trabalhava. Hoje, é nome de uma rua no bairro de Fernão Dias, em Belo Horizonte.

São histórias que denunciam o racismo, mas que também valorizam o protagonismo negro, para muito além da escravidão e seus estigmas. Saí da exposição energizada para continuar na luta pela visibilização de nossos corpos negros ainda empurrados para as margens e para a morte como alvo das balas “perdidas”. Me dei conta de que na nossa história não cabe mais o sonho, sobre o qual escreveu Kabengele Munanga, de ingressar um dia na identidade branca, julgada superior, mas sim, o fortalecimento de nossas memórias e identidades, assim como a valorização dos processos de descolonização carregados de conflitos, negociações, resistências e afetos. 

Finalizamos aqui parabenizando o museu e as curadoras pela realização. Aproveitamos para expressar o nosso desejo de que a exposição integre a programação permanente do Museu Histórico Abílio Barreto, rompendo assim, definitivamente o silêncio sobre a história das negras e dos negros na capital de Minas Gerais.

 

P.S.: Vale lembrar que entre setembro e dezembro de 2007, no mesmo Museu Histórico Abílio Barreto, teve lugar a exposição “Uma questão de raça: representações do negro no museu da cidade”. Segundo Nila Rodrigues Barbosa, essa exposição “foi concebida para ser o primeiro exercício do MHAB em direção ao reconhecimento dos sujeitos histórico negros em Belo Horizonte, a partir de uma nova leitura de como são representados no acervo daquele museu”. Ficamos felizes em ver que o esforço não parou no “primeiro exercício”, mas continua em iniciativas como a exposição “Ndê!…”.

Informações gerais:

MUSEU HISTÓRICO ABÍLIO BARRETO

Av. Prudente de Morais, 202 – Cidade Jardim, Belo Horizonte – MG

Tel: (31) 3277-8573

mhab.fmc@pbh.gov.br – bhfazcultura.pbh.gov.br

Visitação:  terça, sexta, sábado e domingo: das 10h às 17h, quarta e quinta: das 10h às 18h30

Fontes e referências

Visita à exposição NDÊ! Trajetórias afro-brasileiras em Belo Horizonte no Museu Histórico Abílio Barreto, Belo Horizonte, realizada em 21 de agosto de 2019.

Folheto da exposição NDÊ! Trajetórias afro-brasileiras em Belo Horizonte recebido no dia da visita.

SILVA, Mauro Luiz da (Org.). Habemus Muquifu. Belo Horizonte: Editora Marginália Comunicação, 2019 [presente da amiga Ísis Pimentel de Castro, com direito a autógrafo do Padre Mauro e tudo] 

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 5 ed. Rev. ampl. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Coleção Cultura Negra e Identidades). 

BARBOSA, Nila Rodrigues. Uma questão de raça: representações dos negros o museu de história de Belo Horizonte. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, v. 40, p. 221-236, 2008.

***

Para ver mais imagens da exposição, visite https://www.flickr.com/photos/ascomfmc/albums/72157702790013661

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