Maria Cambinda: uma máscara, uma boneca, uma escultura.

Por Aline Montenegro Magalhães e Solange Palazzi (Historiadora, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Ouro Preto)

Dividir com o público as dificuldades da arqueologia ou da história, a luta dos pesquisadores para descobrir um sentido ainda seguro, pode ser uma técnica legítima para suscitar a curiosidade e atração pelo conhecimento. A incerteza é também a ocasião para que resplandeça o que uma máscara ou uma vasilha acolhem de mistério e poesia.

Nestor Garcia Canclini, 1994 em: http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=reviphan&pagfis=8429

 

Não. As coisas não têm paz. Quem dirá quem pesquisa as coisas… 

Maria Cambinda até que teve um longo período de paz, cerca de 40 anos que ficou na Reserva Técnica do Museu Histórico Nacional, sem ser conhecida, sem ser convocada para integrar uma exposição ou coisa parecida. Somente em 2009 que, mesmo mantendo o anonimato, passou a integrar o módulo “Portugueses no mundo” do circuito permanente do museu, simbolizando o continente africano em uma vitrine que reúne objetos representativos da Expansão Marítima Portuguesa entre os séculos XV e XVI.

Exp Maria Cambinda
Maria Cambinda na vitrine “Portugueses no Mundo” do Museu Histórico Nacional. Escultura, máscara e boneca em madeira. Século XIX. Mede 110x21cm. FOTO: Aline Montenegro

Não, ela não é desse período, mas sim do século XIX. Entretanto, como se trata de um artefato afro-brasileiro, foi escolhida para ali estar. A legenda que a identificava, recentemente substituída, informava tratar-se de uma escultura em madeira do século XIX. Em sua ficha catalográfica constava que era uma Deusa da fertilidade, atribuição compreensível pelo recorte feito na madeira abaixo de seu ventre, que pode ser interpretado como uma vulva gigante, hipérbole comum em esculturas africanas como o falo de Elegbara, ou Exu, segundo relato do viajante John Duncan, de 1847.

Não. Maria Cambinda não é uma deusa da fertilidade. É uma boneca e também uma máscara, feita e usada pelos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Ouro Preto (MG). O buraco parece ter sido feito para facilitar o ajuste da escultura ao corpo humano que possivelmente a carregava em cortejos para pedir esmolas para as festividades da Irmandade, como a coroação de Nossa Senhora.

Chegou ao Museu Histórico Nacional em 1928 por meio da doação do então juiz da irmandade, Odorico Neves a Gustavo Barroso, então diretor do MHN, que na época inspecionava reparos na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Ouro Preto, a serviço do Governo do Estado de Minas Gerais. A Igreja Católica voltava-se à preservação de seus bens, na busca de recuperar o prestígio perdido com a proclamação da República, em 1889. Desfazia-se, assim, do que não estava diretamente ligado ao culto católico, como Maria Cambinda, doada juntamente com uma coroa e um cetro do Reinado da Irmandade, bem como um tambor conhecido por Caxambú.

Depois das duas referências como boneca nas cartas que Odorico Neves remete a Barroso falando sobre o transporte do objeto de Ouro Preto para o Rio de Janeiro,  Maria Cambinda nunca mais figurou nos escritos do museu. Foi ocultada sob a informação da presença de “ídolos africanos” na “Sala Antônio Prado Júnior”, em reportagem assinada por Gustavo Barroso e publicada na seção “Relíquias Brasileiras” da revista Selecta de 28/05/1930, sob o título “Lembranças da escravidão”. A reportagem é ilustrada com uma fotografia da sala que integrava a exposição do MHN. 

Não se tratava de uma sala propriamente dita, mas de um pequeno hall, área de passagem entre uma galeria e outra no primeiro pavimento do edifício. Foi descrita no guia de turismo “Rio de Janeiro e seus arredores”, de 1939, já sob o nome de Luís Gama. Essa descrição nos levou a concluir que a Maria Cambinda citada nas cartas de Odorico Neves era a escultura que aparece no chão, à direita, na fotografia publicada na revista Selecta. Ao apresentar os objetos ali expostos, o guia assim se refere à Cambinda:  “uma máscara de madeira pintada, representando uma preta de busto nu, que os negros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto, usavam durante as procissões religiosas”. O nome da máscara permaneceu não sendo dito.

Mário Barata, museólogo e especialista em História da África, escreveu uma matéria sobre Arte Negra, na Revista da Semana de 17/05/1941, na qual comenta sobre Maria Cambinda. Segundo ele, “No [MHN] há uma curiosíssima máscara de madeira dos negros da Irmandade do Rosário de Ouro Preto, onde era levada nas procissões. O rosto de mulher, esculpido em arte puramente negra, representa Maria Cambinda”. Abaixo da fotografia da escultura em dois ângulos diferentes, de frente e de perfil, encontra-se a legenda: “Máscara de Maria Cambinda utilizada pelos negros em procissões em Ouro Preto. As máscaras sempre tiveram grande importância na África, sendo utilizadas não somente em festas religiosas como em cerimônias guerreiras, tribais e outras. […] interessantíssimos o nariz e o penteado”.

Para contextualizar e entender o sentido e a função desta peça na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Ouro Preto nos séculos XVIII e XIX,  é preciso voltar aos primórdios da Irmandade. No Livro de compromisso, que é de 1715, no Capítulo II está colocado que “Haverá Nossa Irmandade um Rei e uma Rainha, ambos pretos, de qualquer nação que seja, os quais serão eleitos todos os anos, por mesa e mais votos e serão obrigados assistir,  com seu estado (negrito nosso) as festas de Nossa Senhora do Rosário e mais Santos acompanhado, no último dia a procissão, do Palio e assim o Rei, como a Rainha dará cada um esmola 16 oitavas de ouro; e não serão obrigados os juízes, nem juízas de Nossa Senhora e mais santos a ir buscá-los nas suas casas e menos recebê-los a porta de Igreja, para evitar distúrbios que poderão ocorrer, porém se entre eles houver boa união os poderá ir buscar em sua casa, se quiser os acompanhar para a Igreja…”

No capítulo XX diz que no primeiro dia da festa de Nossa Senhora do Rosário, juízes e juízas, irmãos e irmãs participarão da procissão conforme costume, e no final do texto consta que eles não serão obrigados a buscar o rei e a rainha em suas casas porque estes irão para a Igreja com seu estado.

 O “estado” a que se refere os dois capítulos seria um grupo que acompanharia este Rei e esta Rainha,  que em uma leitura atual, seriam o rei e rainha coroados nas festas de Reinados e Congados que ainda existem, especialmente de Minas Gerais. Então era costume reis e rainhas terem um grupo de pessoas em torno deles, que comporiam o seu “estado”. O mesmo livro atesta que que as esmolas dadas para ser rei, rainha, juiz ou juíza eram muito altas, especialmente para escravizados ou libertos. Ainda que eles tivessem diversas formas de arrecadação, sair com um grupo na rua para pedir esmolas deveria ser uma prática comum, não só nas festas do Rosário, mas esta era uma situação que vemos em outras das festas coloniais, como o Natal, que contava com arrecadação das Folias de Reis e das Pastorinhas, Charolas nas festas de santos, os Impérios do Divino, dentre outras. Estes grupos tinham a dupla função, de arrecadar dinheiro para suas festas e divulgar seu acontecimento.

Acreditamos que da mesma maneira que o rei e a rainha tinham um grupo para ajudar nesse processo de arrecadação, a Irmandade também tinha um grupo com esta funcionalidade. E não encontramos elas registradas nos livros da Irmandade porque eram atividades realizadas pelos escravizados e libertos nos terreiros de seus senhores ou de simpatizantes e só se registrava o que era de interesse e no formato da Igreja Católica e do Estado Português.

Mas o livro de Receita e Despesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário,  de 1814 atesta o pagamento do alvará do “Bando” e também de cinco máscaras para o “bando” de Nossa Senhora do Rosário. Em outros anos nos apontamentos encontramos couro de Boi para conserto de pandeiro, de tambor e tamboril. Todas essas pistas nos levam a crer que existia um grupo que saía nas ruas com a função de coletar esmolas e de anunciar a festa do Rosário e do Reinado, ou Juizado de algum Irmão ou Irmã. Este contexto nos leva a concluir que a  Maria Cambinda foi uma peça criada para esta finalidade.

A boneca, provavelmente, saía à rua acompanhada de tocadores e dançantes passando de porta em porta, pedindo esmolas e falando da festa. Esta pertencia à Irmandade, por estar guardada na Igreja, mas é possível que os candidatos ao reinado ou à juizada também utilizassem esta prática para arrecadar recursos na rua. 

Pois no dia oficial da festa os integrantes do Bando, vestidos com suas opas de Irmão (uma veste branca curta, sem mangas e aberta na frente) e segurando um oratório esmoler ou uma salva (pequena bandeja de prata), se tornam o “estado” ou a “corte” do Reinado ou da Juizada, que se comportava conforme as regras da Irmandade. E nos terreiros, nas festas particulares, tornavam-se o Congado ou Reinado, que, com seus dançantes e Reis Coroados festejavam Nossa Senhora do Rosário, como ainda acontece em muitas localidades pelo Brasil. Ressalvado que na Igreja só se tocava música sacra, não era permitido tocar tambores e muito menos dançar. Proibição que só desapareceu em meados do século XX. 

Outra característica do período colonial que pode fortalecer essa hipótese sobre a Maria Cambinda é a prática europeia e portuguesa de utilizar bonecos mascarados, chamados catitões, em algumas festas. Assim eram chamados por serem grandes e desengonçados, o oposto de catita ou catito, que significa bonita e elegante. Prática que existia em alguns lugares de África, destacando também as carrancas indígenas, pois não podemos nos esquecer do imbricamento cultural existente no Brasil.

Provavelmente era uma boneca, com perfil de catitão, que saía nas ruas não necessariamente para assustar as pessoas, mas para chamar a atenção. Vestida com tecidos ou palhas, devia brincar com o público para estimular a doação. Há que se destacar que muitas pessoas com a idade superior a 65 anos, no bairro do Rosário, em Ouro Preto, onde a Igreja e a Irmandade estão localizadas, nos dias atuais, falam que suas mães, quando queriam lhes fazer medo falavam que Maria Cambinda iria pegá-las.

Baga_nimba_old_pic
“A máscara de Nimba apoia-se nos ombros da dançarina durante as cerimônias agrícolas. O corpo fica oculto pelo tecido e uma saia de ráfia. A dançarina olha através da abertura entre os seios da máscara.”
Fonte: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/uma-deusa-africana-descoberta-no-rio-grande-do-sul/ – Blog: Ensinar História – Joelza Ester Domingues. É provável que Maria Cambinda tivesse uso parecido.

Ao sair do anonimato, Maria Cambinda abre uma nova janela para analisar e compreender como era vida deste povo que veio de África e aqui, seguido de seus descendentes, construiu outras histórias que precisam se melhor conhecidas. Processos nada pacíficos…

Referências

BARATA, Mário. Arte negra. Revista da Semana, 17 de maio de 1941. P. 16,17 e 34. Acessível em: http://memoria.bn.br/pdf/025909/per025909_1941_00020.pdf

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro. 2 ed, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do livro, 1962.

DOMINGUES, Joelza Ester. Uma deusa africana descoberta no Rio Grande do Sul. Ensinar História. (Blog)  https://ensinarhistoriajoelza.com.br/uma-deusa-africana-descoberta-no-rio-grande-do-sul/

Guia do viajante Rio de Janeiro e arredores. Rio de Janeiro: Companhia Carioca de Artes Gráficas, 1939. (série “Os Guias Verdes do Brasil”).

IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS DE OURO PRETO. Livro de Compromisso. 1715 (Manuscrito). Arquivo de Arte Sacra da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar. Ouro Preto. Minas Gerais.

MAGALHÃES, Aline Montenegro. A Inspetoria de Monumentos Nacionais do Museu Histórico Nacional e a proteção de monumentos em Ouro Preto (1934-1937). An. mus. paul. [online]. 2017, vol.25, n.3 [cited  2019-11-27], pp.233-290. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142017000300233&lng=en&nrm=iso&gt;. ISSN 0101-4714. http://dx.doi.org/10.1590/1982-02672017v25n0308.

MUSEU HISTÓRICO NACIONAL(1944). Documentário da ação do Museu Histórico Nacional na defesa do patrimônio tradicional do Brasil. Anais do Museu Histórico Nacional, v. 5. Rio de Janeiro, 1955.

PRANDI, Reginaldo. (2001). Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo católico e demonização do orixá Exu. Revista USP, (50), 46-63. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i50p46-63

As coisas não têm paz

Expor Visões

Exporvisões Visualizar tudo →

Miradas afetivas sobre museus, patrimônios e afins

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: