Educar e aprender em museus. Perspectivas para o ensino de História

Por: Aline Montenegro, Carina Martins e Francisco Régis

 

As pesquisas sobre educação em museus cresceram enormemente nas últimas duas décadas, ainda que a área de História não ocupe um lugar de proeminência, sendo subsumida pelas Ciências Naturais e pelas Artes. Ademais, o universo dos museus e suas práticas monológicas e lineares foram intensamente bombardeados tanto pelos movimentos sociais, como por pesquisadores/as e profissionais desse campo, ensejando rupturas e densidades nas narrativas museais, tendo na educação, muitas vezes, a plataforma para atualização memorial e diálogo com as diferentes demandas sociais.

É possível perceber, assim, uma inflexão ético-política no debate sobre representações históricas nos museus, que se aprofunda nas reflexões sobre nossa própria capacidade de historicizar e narrar experiências tão diversas em relação à temporalidade. Evidentemente, tal debate também questiona a possibilidade dos museus atuarem como atores importantes nas disputas memoriais e na projeção (ou mesmo alargamento) de novos horizontes de experiência, tão estrangulado pelo presentismo e pelas demandas consumistas da contemporaneidade.

O esforço de reunir pesquisadores/as pertencentes a diferentes gerações e campos de atuação visa ainda subsidiar novas estratégias de apropriação dos museus pela História, transcendendo diagnósticos pessimistas acerca da relação entre poder e memória, vitalizando, dessa forma, novas possibilidades de exercitar o poder da memória. Da mesma forma, a compreensão transdisciplinar promove uma rica reflexão para o ensino de História, por meio dos olhares advindos da Educação, da Museologia, da Antropologia, da Arte e da História. O respeito à diversidade, coerente com as escolhas temáticas do dossiê, coaduna com o esforço em reunir pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, com representatividade indiciária para pensar a agenda das pesquisas recentes em ensino de História nos museus. A contribuição de uma pesquisadora argentina atuando no Canadá busca internacionalizar os diálogos propostos.

Dessa forma, o dossiê abarca três dimensões articuladas ao “boom” da memória e das demandas por História — em primeiro lugar, historicizar os projetos de educação em museus, com o objetivo de mapear sujeitos, narrativas e práticas. Nessa perspectiva, o artigo “Educar em museus históricos: entre deveres e devires da memória”, de Carina Martins Costa, destaca ações educativas realizadas no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), durante parte da gestão da diretora Geralda Armond. Trata-se de um projeto de ensino da história posto em prática sob a égide de uma “pedagogia de coturno”, que lamentavelmente, encontra ressonância nos tempos atuais. Francisco Régis Lopes Ramos, por sua vez, no artigo “A pedagogia dos antiquários: Gustavo Barroso e o passado que objetos e palavras podem conter”, propõe uma reflexão sobre uma “pedagogia antiquária” identificada na escrita da história de Gustavo Barroso, na qual o primeiro diretor do Museu Histórico Nacional estabelece relações entre passado e presente mediadas por objetos e representadas na tensa fronteira entre História e ficção. Já o artigo “Notas sobre a Diáspora Africana na exposição e nas ações educativas do Museu Histórico Nacional”, escrito por Aline Montenegro Magalhães, Erika Azevedo, Fernanda Castro e Stephanie Santana traz uma contribuição profícua, oriunda do encontro entre olhares e diálogos dos núcleos de pesquisa e educação do Museu Histórico Nacional. Ao abordarem as narrativas sobre negros/negras na exposição, demonstram evidências de ignorância, desconhecimento, reiteração de estereótipos e invisibilização, transmutadas, pela ação de pesquisa e educação, em conhecimento, problematização e protagonismos.

A segunda dimensão visa aprofundar o debate sobre a diversidade nos museus, com um olhar apurado para práticas museais relacionadas ao gênero, ao debate étnico-racial e às memórias silenciadas. Em conexão com o artigo anterior, Valdemar de Assis Lima e Elisom Paim, no artigo “Educação museal e educação escolar: diálogos para uma sociedade antirracista”, exploram, ancorados na interculturalidade crítica e na perspectiva decolonial de educação, as narrativas de professoras e educadoras museais sobre as experiências de situação de visita dos públicos escolares, aos museus que preservam acervos de matriz cultural africana e afro-brasileira. A pesquisadora Andrea Roca, no artigo “Os usos do patrimônio e dos museus no ensino da História”, traz uma importante contribuição sobre experiências de problematização da história oficial argentina em relação ao povo indígena Mapuche, encetadas no Museu Etnográfico de Buenos Aires entre 2000 e 2010. Face à ausência de materiais escolares e de divulgação científica em contexto de ataques aos direitos indígenas, a autora demonstra a potência das ações educativas do museu e a importância de sua conexão com o tempo presente.

A terceira dimensão propõe-se a refletir sobre a apropriação de professores/as e alunos sobre narrativas e linguagem museal. Neste sentido, a compreensão do artefato, da expografia e da tecnologia museal torna-se ferramenta para a construção de outras linguagens e reflexões, incluindo aqui desvios e interpretações a contrapelo de narrativas consideradas oficiais. Marcele R. N. Pereira, no artigo “Museus Escolares: trajetória histórica e desafios à luz da museologia social”, historiciza os museus escolares e, sob a perspectiva da museologia social e da educação museal contemporâneas, aponta para possibilidades de um novo tipo de museu escolar, comprometido com a comunidade a que pertence. Já os artigos “Museu e imaginação histórica”, de Isabella Carvalho de Menezes e Lana Mara de Castro Siman, e “Do patrimônio musealizado à produção de exposições por estudantes de escolas públicas, de Alyne Mendes Fabro Selano e Benílson Mario Iecker Sancho, apresentam ações educativas nas quais os estudantes foram diretamente envolvidos como protagonistas na produção de material pedagógico e exposições mobilizados para o ensino de História em museus. No primeiro caso, inspiradas na noção de imaginação histórica, de Robin Collingwood, as autoras analisam a criação de um jogo de cartas produzidas com base no acervo do Museu do Ouro (MG), cuja trama foi elaborada pelos alunos. Já no segundo, o foco é dado a duas exposições protagonizadas por estudantes do nono ano do Ensino Fundamental de escolas públicas. Experiências pedagógicas que se constituíram na interface entre escola, museu e universidade, desenvolvidas pelos autores, no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Nesse dossiê sobre educar e aprender nos e com os museus, procuramos reunir variadas formas de aproximação e de leitura que articulam, em perspectivas teórico-metodológicas diversas, o material ao imaterial, o local ao global, os processos de silenciamento aos gritos, a cronologia ocidental às temporalidades decoloniais. Assim, esperamos oferecer uma contribuição aos/às professores/as e aos/às pesquisadores/as do ensino de História.

Leia os artigos do dossiê “Educar e aprender em museus. Perspectivas para o ensino de História” e os demais que compõem o 51º volume dos Anais do Museu Histórico Nacional em: Anais do Museu Histórico Nacional, vol 51, 2019 O volume está imperdível!

Tomando nota

Expor Visões

Exporvisões Visualizar tudo →

Miradas afetivas sobre museus, patrimônios e afins

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: