Exu e as encruzilhadas do patrimônio

por Carina Martins Costa

Estive recentemente na Casa do Rio Vermelho, em Salvador. Conhecida por ser a casa habitada por Jorge Amado e Zélia Gattai por muitos anos, fica escondida do agito da cidade em uma rua no topo do bairro, cercada por muito verde e silêncio.

Após a morte do casal, a Casa foi musealizada por uma equipe liderada pelo cenógrafo Gringo Cardia e vários pontos merecem destaque. A arquitetura é um deles, por destacar o bem viver baiano, os materiais originais, a abertura para o convívio e a interação com a natureza. O jardim, no entanto, roubou logo minha atenção. O aroma, as plantas de cura, a presença dos donos pelas cinzas depositadas no “banquinho do amor”, a tranquilidade, o barulhinho da água da fonte e a temperatura agradável. Ao vislumbrar a planta do jardim, outro elemento se descortina: o sagrado do Candomblé.

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O arco e flecha (ofá) de Oxóssi é utilizado no paisagismo do jardim e já nos alerta que ali há diálogo com o sagrado. Na casa, também observamos o uso do símbolo nos ladrilhos, na decoração das camas e em outros espaços.

Logo na entrada da casa, observamos um Exu aterrado, com vasilhames de oferendas, garrafa de bebida e plantas consideradas de poder, como a Lança de São Jorge.

 

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Ao lado da imagem, há uma placa bilíngue, que explica que Exu é mensageiro entre os mundos, sua ferramenta, saudação, dia de semana, cor e oferendas. Informa ainda que o Exu foi encomendado ao ferreiro Manu em 1966, antes da mudança do casal de escritores. O Orixá foi assentado pelo Mestre Didi, filho da Mãe Senhora (Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá). A placa por si só é interessante por demonstrar o projeto pedagógico e político de compartilhar informações sobre um Orixá tão temido pelo senso comum, talvez pela associação errônea com o diabo cristão, difundida por Igrejas na tentativa de eliminar e combater as religiões afro-brasileiras. Em vão. 

Nas palavras de Jorge Amado, “quem guarda os caminhos da cidade do Salvador da Bahia é Exú, orixá dos mais importantes na liturgia dos candomblés, orixá do movimento, por muitos confundido com o diabo no sincretismo com a religião católica, pois ele é malicioso e arreliento, não sabe estar quieto, gosta de confusão e de aperreio. Postado nas encruzilhadas de todos os caminhos, escondido na meia-luz da aurora ou do crepúsculo, na barra da manhã, no cair da tarde, no escuro da noite, Exu guarda sua cidade bem-amada”. (AMADO, 2012:  p.21)

 A placa informa que o ògo, ferramenta como um porrete, tem a propriedade de transportá-lo por distâncias longas. Ao ver o Exu da Casa do Rio Vermelho, eu me transportei aos meus próprios encontros com a entidade. Um deles foi a instigante leitura da dissertação de mestrado de Lucas Marques, orientada pelo Prof. Márcio Goldman no Museu Nacional.

fogos

 

O autor procurou “caminhar torto” e com ginga para acompanhar José Adário dos Santos, mais conhecido como Zé Diabo, o ferreiro da Ladeira de Conceição da Praia em Salvador, filho de Ogum e pai-de-santo. Como se aprende o Candomblé e os saberes-fazeres ligados à religião? Lucas mostra a importância do silêncio, do olhar, da escuta, dos gestos. Como as ferramentas são feitas nas oficinas? O autor dispara momentos, como o fogo da forja, a manifestação da energia de Ogum na produção material da entidade. De acordo com o pesquisador, os caminhos para a produção do Exu vão desde o pedido da entidade em se materializar, por meio de sonhos, imagens e jogos de búzios até a fabricação, armação e soldagem. Após esse complexo trabalho, tão bem descrito pelo autor, a ferramenta ganha vida, tem seu axé. Portanto, é única. A biografia do objeto segue com os rituais de aterramento e uso religioso.

Essa pesquisa inspira a pensar as encruzilhadas do patrimônio e sua preservação. Muitas vezes, pensamentos ocidentais e eurocêntricos dominam o debate e nos fazem pensar em construções, permanências e desejos de eternidade. Exu, sua forja, Zé Diabo, o brilho do fogo, seu ògo  nos fazem pensar em diferentes agências, no encontro entre humano e inumano, nas alquimias do saber-fazer.

Que 2020 venha com a força, a firmeza e a proteção de Exu! E seja um ano da diversidade e do respeito, potente e transformador.

 

LISTA DE IMAGENS

Figura 1 Planta da casa e do jardim da Casa do Rio Vermelho, na qual podemos observar o arco e a flecha de Oxóssi, orixá de cabeça de Jorge Amado, no traçado do paisagismo construído pelo casal. Fotografia da autora/ dezembro 2019. 

Figura 2 Exu, jardim da Casa do Rio Vermelho. Fotografia da autora/ dezembro de 2019. 

Figura 3 O fogo na oficina de Zé Diabo, Salvador. Fotografia de Lucas Marques, publicada na Revista de @ntropologia da Ufscar, 2017.

 

PARA SABER MAIS

AMADO, Jorge. Bahia de todos os santos. 1945, 11 edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

LOPES, Nei. Exu. In: Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. 4a edição. São Paulo: Selo Negro, 2011.p. 273.

MARQUES, Lucas. 2016. Caminhos e Feituras: seguindo ferramentas de santo em um candomblé da Bahia. Dissertação de mestrado. PPGAS, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

PRANDI, Reginaldo. (2001). Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo católico e demonização do orixá Exu. Revista USP, (50), 46-63. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i50p46-63

 

 

 

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