“Os minimalistas”- uma primeira mirada

por Carina Martins

Há um ano, uma amiga muito querida me falou sobre o minimalismo e os impactos em sua vida, particularmente, em suas viagens, ao aderir aos preceitos de ter menos coisas e mais experiências.  Aquela narrativa me contagiou pela liberdade que ela narrava em viajar com poucas e boas coisas; a sensação de ter a casa em uma sacola e poder percorrer com mais facilidade os caminhos que se apresentavam; a leveza que trazia uma descoberta do mundo sem souvenirs que aterrizam em nossos mundos com pouco sentido, a não ser a lembrança de um consumo.

Recentemente vi o documentário da Netflix, “Os minimalistas”, de 2016, centrado em dois homens, Joshua Fieldes Milburn e Ryan Nicodemus. Chama a atenção o amplo protagonismo masculino nas entrevistas do documentário, que me fizeram perguntar se não era mais fácil ser minimalista sem ter filhos ou o peso social da beleza sob os ombros. Ainda assim, o documentário aborda, secundariamente, experiências femininas como o projeto 333, no qual usa-se 33 peças de roupa, acessório e calçados durante 3 meses, ou ainda a mulher que reside em uma micro-casa.

 

minimalista

 

O documentário apresenta a jornada dos dois escritores minimalistas pelos EUA para divulgação dos livros, com direito a abraços ao final da palestra. Parece um circuito literário pouco organizado, o que fortalece a imagem que eles querem passar de inspirar mudanças sem abrir mão da simplicidade da vida. Os dois teriam galgado degraus de sucesso em empresas norte-americanas (não fica claro quais são) e desistiram da trajetória ascendente por conta da percepção da falta de propósito e felicidade que o acúmulo das coisas traz em suas vidas. Acompanhamos seus argumentos com fortes cenas de investidas de consumidores em promoções de megastores, com a selvageria que nos aproxima de animais sem qualquer consciência de si ou do próximo. Há também entrevistas com especialista de neurociência, socióloga e outros escritores e adeptos do minimalismo, todos norte-americanos e brancos.

Em uma palestra, não sei se Joshua ou Ryan afirmam que se uma pessoa tem uma biblioteca, ama seus livros e possui relacionamento de valor com eles, que mantenha seus livros. Achei esse ponto importante. A questão do minimalismo, ao que me pareceu aqui, significa ter coisas que tenham valor, sejam mobilizadas por nós, portem sentido. Não pude deixar de pensar nos livros que acumulamos e são apenas biográficos de uma trajetória de leitura, que poderiam estar em bibliotecas públicas provocando mais apropriações do que simplesmente sendo testemunhos de uma erudição. Ao mesmo tempo, penso em todos os livros marcados, usados, anotados, que também me ajudam a pensar como eu pensava, ou mesmo a retornar a pontos que considerei importantes e que precisava retornar.

E quanto aos objetos de memória? Em todas as casas apresentadas, procurei por eles. Simplesmente parecem não existir no documentário. Não vi retratos, objetos antigos, baús ou nada que nos reporte a memória de ancestrais ou das próprias pessoas retratadas. Aparentemente, e isso precisa de maior investigação, o minimalismo tem a relação com o viver o presente, o que é reforçado em um depoimento sobre a importância da meditação e da redução das preocupações cotidianas. Viver o presente talvez tenha relação com a utilidade dos objetos que selecionamos na vida minimalista, que tenta se opor ao consumo desenfreado e propiciar mais tempo e liberdade paras as pessoas que os adotam.

Seria possível, pergunto, viver no presentismo da utilidade das coisas, sem construir, com elas, sentido de estar no mundo? A resposta do documentário atenta-se a uma sociedade de hiperconsumo. Minha pergunta é – onde ficaria, em uma sociedade minimalista, as memórias dos objetos? Museus? Virtualmente?

Gostei do documentário, apesar da narrativa altamente centrada nos EUA e com as doses de humor que me causam constrangimento. Ele me fez lembrar minha adolescência, quando por um longo período optei por vestir calça jeans , camisa lisa e sandália rasteirinha. Eu não gastava mais que 5 minutos para decidir como sair de casa e isso certamente me deu tempo e espaço para ser muito, muito feliz. Hoje, com as redes sociais, tal desapego parece ser cada vez mais difícil …

 

Veja também:

Minimalism: A Documentary About the Important Things

2016    1h 18min  Documentários

Pessoas que acreditam que bens materiais não trazem felicidade são entrevistadas neste documentário que aborda a questão: menos é mais?

Estrelando:Joshua Fields Millburn,Ryan Nicodemus

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Miradas afetivas sobre museus, patrimônios e afins

4 comentários Deixe um comentário

  1. Carina, nos últimos anos venho inserindo elementos do minimalismo na minha vida. A Marie Kondo, que também tem um seriado no Netflix, propõe uma abordagem mais leve e factível, na qual mantemos os objetos que nos trazem felicidade, com organização e intencionalidade. Sobre os objetos de memória, para a maioria dos minimalistas eles não tem função material, por isso costumam ser guardados como imagens, em bancos de dados. Acho que vale continuar uma reflexão sobre os lugares de memória, entre o consumismo e o minimalismo como filosofias de vida.

    • EI Priscila, que legal seu depoimento. Eu queria também escrever sobre Marie Kondo, acho que tudo isso nos faz refletir sobre o custo, em todos os sentidos, do sistema de objetos contemporâneo. Eu não tinha refletido sobre esse ponto, quero aprofundar. Por que quem garante a preservação das memórias digitais? São coisas muito boas para se pensar! Obrigada pelo seu comentário e experiência minimalista. Vamos juntas!

  2. Se o minimalismo tem a ideia de não cair na armadilha do sonho americano, como os minimalistas lidam com a imposição cultural desde que nascemos? Por exemplo a indústria bovina ovina e laticínia. Explorar animais para nossa satisfação que chamamos de normal também é uma armadilha.
    A não liberdade, ou seja a privação à este sistema de consumismo também é uma armadilha. Minorias sociais não têm essa liberdade de escolha, são privados do consumo desde o seu nascimento, assim desejam mais e mais para que tenham o mínimo, e acumulam coisas não necessárias. Como um negro de periferia vai se levantar de manhã e ir curtir uma caminhada se tem que trabalhar logo cedo para seus filhos se alimentarem?! Como que uma mulher vai escolher viver com o mínimo se ela tem que comprar absorventes todo mês? Como fica a questão do plástico? Escolher não acumular panelas em casa mas comprar comida em recipientes descartáveis também é uma armadilha.
    Se os minimalistas querem ter o mínimo para aproveitar o mundo (por exemplo viajando) como conseguem o dinheiro para isso? O que pode ser considerado um trabalho minimalista?
    Em sociedade: É completamente aceitável que um homem vá a um casamento, à padaria, ao restaurante, de calça jeans e sapato, mas a sociedade patriarcal não permite que uma mulher faça o mesmo. Outros tipos de cabelo (não lisos) requer cuidados especiais, principalmente os crespos que vivem em sociedade.
    Percebe-se o lado estrutural do minimalismo, escolher não ter também é escolher. Nem todos tem a oportunidade de escolha e isso tem que ser falado. O dinheiro não traz felicidade, dizem que um rico é a melhor pessoa para afirmar isso, mas os moradores de rua também não garantem que o minimalismo pode ser um sucesso.
    Outro detalhe importante: Minimalista de iphone está defendendo qual parte do conceito de “ocupar menos espaço também é melhor para o mundo”? Nenhuma. A fábrica da Apple é uma fábrica de suicídios e exploração, quem compra produtos dela está comprando essa idéia, os minimalistas pensam no que é melhor socialmente ou também é uma armadilha econômica social que trata o indivídual?

    • Oi Gislene, que comentário mais rico!! São muitos os dilemas e acho que você foi no cerne da questão. “Escolher não ter é também escolher”, sobretudo para quem tem. É mais fácil ser minimalista com uma razoável quantia no banco né? Essa aposto que eles guardam. Obrigada por seu comentário, eu fiquei incomodada na questão da memória, de nossa relação identitária com os objetos e artefatos, embora uma vida mais simples de fato me seduza . De qualquer forma, o debate interssecional que aponta é fundamental e sem ele, não poderemos ler o documentário, de fato. Acredito ainda que a sociedade de hiperconsumo norte-americana não pode ser comparada com a nossa, como por exemplo na série da Marie Kondo, você conhece? Receba um beijo nosso e reavivou o debate para outra rodada de minimalismo!

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