De alma lavada com a Viradouro

Por Aline Montenegro Magalhães

O Rio de Janeiro este ano teve o carnaval das águas. Água mineral para beber, uma vez imprópria a da Cedae; a chuva que molhou foliões e deixou a cidade mais fresca; as ondas salgadas de Itapuã e as águas escuras da Lagoa do Abaeté, representadas no magnífico desfile da Unidos do Viradouro, na Marquês de Sapucaí… 

Águas que lavaram a alma da bicampeã Escola de Samba de Niterói, que no ano passado amargou o segundo lugar, sem vencer há mais de vinte anos. Lavaram também a alma da gente que vibrou, cantou e requebrou com esse samba cheio de axé, suor e afeto das “ganhadeiras” de Itapuã. Mulheres negras, cuja ancestralidade remete às escravizadas de ganho de finais do XIX, que circulavam por Salvador vendendo serviços e produtos, colorindo as ruas e transformando trabalho em liberdade.

Lagoa do Boqueirão
Na imagem do século XVIII, atribuída a Leandro Joaquim, observamos lavadeiras exercendo seu ofício na Lagoa do Boqueirão, próxima aos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Diferente da Lagoa do Abaeté que foi preservada, integrando a área de proteção ambiental Parque Metropolitano Lagoas e Dunas do Abaeté desde 1993,  a do Boqueirão foi aterrada para a construção do Passeio Público por Mestre Valentim da Fonseca, entre 1779 e 1783, a mando do vice-rei d. Luis de Vasconcelos e Souza, em um dos primeiros projetos de modernização da cidade. Acervo MHN.

Que samba! Parabéns aos compositores (todos homens!?) Cláudio Russo, Paulo Cesar Feital, Diego Nicolau, Júlio Alves, Dadinho, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos e Carlinhos Fionda! Palmas para o intérprete Zé Paulo Sierra e seu coral de apoio (onde também não se ouviu voz feminina!?)! Artistas que, com cadência e carinho, lembraram as ganhadeiras, sua rotina e seu espaço na cidade. A lida para o sustento, as redes de solidariedade com pescadores, que diz respeito também à resistência às tentativas de modernização e embranquecimento de uma área nobre de Salvador, cantada em verso e prosa. Afinal, quem nunca sonhou em passar uma tarde em Itapuã com Toquinho e Vinícius? Ou não percebeu, como Caetano Veloso, que as areias e estrelas do Abaeté não são mais belas do que a mulher das estrelas?

Hoje, as “Ganhadeiras de Itapuã”, formam um grupo artístico que valoriza, salvaguarda e divulga a cultura de gerações e gerações de lavadeiras e quituteiras da região. Suas músicas remetem às cantorias, rezas e cirandas que alegravam os dias de trabalho duro sob o sol ou à sombra de uma angelim, na voz doce e firme de mulheres que mantêm a tradição de suas ancestrais.

Negra peixeira
“Negra peixeira”, uma “ganhadeira” esculpida na casca da cajazeira, pelo artista baiano Erotides de Araújo, em finais do século XIX. Forma conjunto com mais nove estatuetas. Acervo do MHN.

ORA YÊ YÊ Ô OXUM, saudação à Orixá das águas que inicia um dos refrões, fez baianas rodarem e muitos se arrepiaram ao ouvi-la na boca do povo que cantava sob o silêncio da bateria do mestre Ciça. Salve Mestre Ciça e suas paradinhas impecáveis! Com as bênçãos de Oxum e das águas da Bahia, hoje tem mais Viradouro na Avenida. E vamos, mais uma vez, lavar a alma!

P.S.1: A título de curiosidade, parece que a Bahia costuma dar sorte às escolas de samba que a têm como enredo. Foi assim em 1969, quando a Salgueiro conquistou o campeonato com o samba “Bahia de todos os deuses”; em 1980, quando a Imperatriz Leopoldinense defendeu “O que é que a Bahia tem?”; em 1986, quando a Mangueira veio com “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”. A Estação Primeira de Mangueira ainda conquistou o campeonato, em 2016, com o enredo “Maria Bethânia – A Menina dos Olhos de Oyá”.

P.S.2: a título de curiosidade, ainda… ORA YÊ YÊ Ô OXUM está presente nos dois sambas campeões da Viradouro, o de 1997 e o deste ano. E também aparece no samba “Chuê… Chuá. As águas vão rolar, da Mocidade Independente de Padre Miguel de 1991, que também foi campeão.

 

 

Fontes:

FONSECA, Albenísio. “A Resistência das ‘Ganhadeiras’ na reurbanização de Salvador. Bahia Revista, 26 fev. 2020. Acesso em: https://bahiarevista.home.blog/2020/02/26/a-resistencia-das-ganhadeiras/?fbclid=IwAR3c-gRNx5ncEc6xo7eFBMCIn56VuRvHS8a11oMdTY7jnTZPl5AjzBCqi5g (28/02/2020)

VIEIRA, Kauê. As ganhadeiras de Itapoã e a poesia negra do Brasil. AFREAKA. Acesso em: http://www.afreaka.com.br/notas/ganhadeiras-de-itapua-e-poesia-negra-brasil/ (28/02/2020)

Site Oficial do G. R. E. S. Unidos do Viradouro http://unidosdoviradouro.com.br/enredo/

AMADEI, Bruno. Resenha do samba enviada por Whatsapp. 

 

Para saber mais 

SORRENTINO, Harue Tanaka. Articulações pedagógicas no coro das ganhadeiras de Itapuã: um estudo de caso etnográfico.Tese de Doutorado em música. Salvador, PPGMUS/UFBA, 2013.

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