Museu Jeca Tatu: relato de uma visita

Aline Montenegro Magalhães

Não tem como passar pela BR-356, caminho de Belo Horizonte para Ouro Preto, indiferente ao que avistamos no quilômetro 450, à direita. Uma estátua enorme de um índio chama a nossa atenção. Atrás dela, em nível mais elevado do terreno, a reprodução de uma igreja barroca. São indicativos de que a entrada do Museu Jeca Tatu está próxima, na cidade de Itabirito.

Já tínhamos ouvido falar desse lugar (o professor Marcelo Abreu, da UFOP, nos recomendou a visita) e estávamos curiosos para conhecer. A experiência foi interessante e também incômoda. Dois ônibus antigos nos recepcionaram à entrada. O primeiro transformado em uma sala de estar e o segundo, mais acima, em uma biblioteca, estampando a frase de Ferreira Gullar, “A arte existe porque só a vida é pouco”.

Após pagar o valor de R$2,50, entramos em um espaço completamente abarrotado de coisas antigas. Uma variedade enorme de objetos amontoados, que nos dificulta até a fixação do olhar em algo específico. São muitos aparelhos de rádio e televisão, máquinas registradoras, relógios, instrumentos musicais, latinhas de bebidas industrializadas, fotografias, artigos de jornais, cédulas fora de circulação há anos, carros e motocicletas antigos…

Agora, não se questione e nem procure saber de quando são os objetos, de que material são feitos, como eram utilizados ou qualquer coisa do gênero. Não há legendas informativas sobre nada, o que impede um conhecimento melhor sobre o que está exposto, exigindo mais do sensorial. Impossível escrever sobre tudo o que vimos, sob o som de uma música que saía de um toca discos antigo também exposto. 

Coleção de relógios
Coleção de relógios. Foto: Aline Montenegro

Ah os discos! Muuuuuitos vinis que não tocam mais músicas e nem são preservados pelo seu valor documental. Tornaram-se itens de decoração do espaço, transformados em papéis de parede e em um teto sob o telhado. Um teto de discos “voadores” pendurados por fios, que bailam ao sabor do vento! Suas capas estão afixadas nas paredes (com tachinhas enferrujadas), e vão ali perdendo suas cores, suas informações, sob o sol que bate inclemente.

Junto a objetos do passado encontramos também obras de arte feitas com sucata, pelo artista Milton Soares. São partes de objetos que perderam sua funcionalidade, que não se tornaram lixo porque transformadas em arte.

Tem teias de aranha, casa de marimbondos e aves que circulam pelo espaço. Tem também muita poeira. Não se sabe se é a poeira do passado, tão cara aos estudos do professor Francisco Régis Lopes Ramos, ou a poeira do abandono do presente, que ali se acumula por falta de limpeza e conservação do espaço. Há visitantes que reclamam, que se incomodam com a poeira, com a “bagunça” e com a falta de cuidado com o acervo.

Desafio
Desafio: identifique na imagem o que não é objeto em exposição. Foto: Aline Montenegro

Realmente, a “viagem ao passado” ali proposta é interrompida pelo questionamento sobre o futuro dos objetos. Pois, diferente de outros museus, ali não se percebe a preocupação com a durabilidade dos objetos colecionados, que são expostos a intempéries como o tempo, a sujeira e a luz. Me lembrou a máxima de Vinícius de Moraes sobre o amor, “que seja eterno enquanto dure”. E ali, pelo visto, será por pouco tempo. Seria essa a intenção, compartilhar com o público o processo de deterioração das coisas?

Leonardo Ruggio da Silva, idealizador e dono do espaço, declarou que o nome do museu é inspirado no personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato, interpretado no cinema por Amácio Mazzaropi. Entretanto, quem for com a expectativa de encontrar essas referências, vai se decepcionar. A relação pode ser feita (forçando um pouco a barra) com o lugar onde o museu está instalado. Uma área verde, numa cidade do interior de Minas Gerais, bem ao modo de onde vivia o Jeca que Lobato criou como a personificação do brasileiro autêntico, em 1918, no conto “Urupês”.

E a “viagem ao passado” não para por aí. O visitante pode, ainda, assistir a filmes em preto e branco, no cinema montado com cadeiras da década de 1950.

Cinema
Cinema do Museu Jeca Tatu, onde a proposta é assistir a filmes antigos em um ambiente do passado. Foto: Aline Montenegro

Antes de ir embora, vale experimentar os pastéis de angu, uma iguaria famosa da cidade, vendidos na lanchonete do espaço. Assim, encerra-se a diversão nostálgica com sabor.

 

Informações gerais Museu Jeca Tatu: 

Endereço: BR-356, 450, Itabirito – MG, 35450-000

Horário: aberto diariamente das 08:00 às 18:00

Valor do ingresso: R$ 2,50

Telefone: (31) 99816-6432 (quando ligamos ouvimos a mensagem de que o número não existe)

 

Para saber mais:

https://www.youtube.com/watch?v=U1hbcSsuCwg&t=201s

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