O Brazil não merece o Brasil

por Romney Lima

Me dizem que sou demodê,
Saudosista, blazê, retrô…
Me acusam até mesmo de ser
Um malandro cocô, e eu sou
Eu vim da Maia Lacerda
E essa merda faz parte de mim
Bomba de flit, baile no elite, schinit
Taí minha herança, e dela não abro mão
Canário da terra é meu coração
Sou do Rio de janeiro, brasileiro…

(Canário da Terra, Aldir Blanc)

aldir blanc

Foi num 04 de maio no longínquo ano de 1937 que morreu o quase doutor Noel Rosa em Vila Isabel. Mestre das palavras. Caneta aguçada. Cronista do primeiro time da nossa música. 83 anos depois, no mesmo bairro boêmio, o doutor Aldir Blanc Mendes nos deixou. Noel deixou muitos filhos, netos e bisnetos musicais, o maior deles foi, sem dúvida, Aldir Blanc, carinhosamente apelidado por nada mais nada menos que Dorival Caymmi como “ourives das palavras”.

Símbolo de um Brasil real, de um Brasil que poderia ter dado certo, Aldir foi embora em meio a maior crise política e econômica desde os tempos da ditadura, que ele tanto lutou contra – quem nunca cantou (e chorou) a plenos pulmões: “que sonha com a volta do irmão do Henfil e tanta gente que partiu num rabo de foguete, chora a nossa pátria mãe gentil…”

Atento ao mundo em que vivia, mesmo recluso no bairro da  Muda (“envelheci mais continuo em exposição…”), em 2019 ele entregou a letra de Valhacouto para a música de Douglas Germano, que imediatamente gravou: “é um valhacouto: sangue e mentiras, vitória da insensatez, crianças matando, imitando tiras, vale da morte, estupidez”. Samba agudo. Direto. No melhor estilo Aldir Blanc.

Perdemos o nosso cronista. Aldir faz parte de uma linhagem, que vem desde Machado de Assis e Chiquinha Gonzaga. Herdeiro direto (na linha de Xangô) de Noel Rosa e Wilson Batista. Soube, como poucos, transformar em poesia  as cenas mais cotidianas…   “No dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar, e a ponta de um torturante Band-aid no calcanhar” ou “eu me sentia um cinzeiro repleto das pontas que você deixava e que ironia essa imagem: a guimba apagando é quando mais queimava.” Quem não, imediatamente, visualizou as duas cenas? Ele era assim. Gênio. Mas o “Brazil não merece o Brasil” e hoje, quem está no poder, não merece o Aldir, aliás não deve nem saber quem é. Que bom!!! É melhor assim.

Aldir Blanc moldou o meu caráter. Através das suas poesias, ele me fez enxergar um outro país. Ouço Aldir desde não sei quando. Tem tempo. Muito tempo. Sua obra é enorme. Imensa. Formou gerações. Redescobriu herois (“salve o Navegante Negro, que tem por monumento, as pedras pisadas no cais”). Botou o dedo na ferida (“Brasil, tira as flechas do peito do meu Padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro, ainda pode se salvar”). Falou do amor da forma mais visceral possível (O meu amor não é o cais, não é o barco, é o arco da espuma, que, desfeito, eu sou, é tudo e coisa nenhuma).

Mas como ele mesmo disse: “o show de todo artista tem que continuar”.

Obrigado, IMORTAL. Evoé!!!

 

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