Que história é essa? Viva a princesinha!??????

Carina Martins

O combinado era escrever sobre o 13 de maio a partir das comemorações da princesa Isabel no Museu Mariano Procópio. Seria fácil, já que pesquisei muitos anos sobre os rituais cívicos por lá. Tudo é muito interessante, mas repetido: as festas e inaugurações de busto e do monumento gostavam de exibir mais as relações de amizade da princesa com a família Ferreira Lage do que falar dela por si. É como uma selfie no Museu: queremos nos inscrever em uma certa narrativa, exibir pertencimento, contagiar-nos por uma certa “aura”.

O 13 de maio foi a principal data comemorativa do Museu até meados da década de 1960, quando a “pedagogia de coturno” assumiu o tom inclusive do calendário cívico, com a adoção do dia do Soldado em agosto como principal evento. Vale lembrar que as tropas militares do golpe de 1964 saíram do quartel contíguo ao Museu, em Juiz de Fora, onde se situava a 4ª Região Militar.

Voltemos à memória da abolição. Ao começar a escrita do post, lembrei da disputa entre Museu Mariano Procópio e Museu Imperial na construção da memória do Império. Projetos muito distintos na origem institucional, na temporalidade, na coleção, mas que conversavam na valorização da família imperial e no apagamento da escravidão.

O que choca é que ainda na década de 1990 essa narrativa predominou, mesmo no contexto de redemocratização. Eu costumava levar nas aulas de História na UERJ o livreto “D. Ratão I”, escrito por Maria de Lourdes Horta, diretora à época do Museu Imperial. Ele é bem simpático, com capa vermelha e cerca de 20 páginas em preto e branco, ilustrado por Cláudia Nunes. O livro não tem data de publicação, mas acredito que tenha sido em 1999 e teve muitas tiragens, tamanho seu sucesso.

 

dom ratao trono
HORTA, Maria de Lourdes. D. Ratão I: um rato brasileiro. Petrópolis: Centro de Educação Patrimonial: Museu Imperial: IPHAN: MINC, s/d. p.16.

Eu o lia com cara de paisagem e aguardava a reação da turma. Olha, preciso dizer que algumas recepções eram elogiosas: “bacana”, “história lúdica”, “linguagem apropriada”, “divertido”. Às vezes ele passava ileso e tinha que reler algumas frases.  Sei lá, vai que minha pronúncia mineiresca atrapalhou a compreensão da frase “De repente, um bando de camundonguinhos pretos entrou correndo na sala. Estavam chorando e pedindo para ser libertados!”.

A maior parte das vezes, no entanto, a reação era de revolta. Sobretudo quando alunas/os negras/os me olhavam incrédulas/os, e eu continuava a ler com a mesma cara, como se fosse uma bula de remédio. Eu conseguia ver uma bola de ódio vindo na minha direção e era exatamente isso que tornava a aula, a partir daí, muito interessante. Quantos livros bonitos e ordinários, não é mesmo? Quantas ações educativas “moderninhas” difundem estereótipos e preconceitos? Quantos autores de referência para o campo de educação em museus não promovem ações desastrosas na educação? Tudo dentro de um pacote de sedução cognitiva chamada Museu, tudo legitimado pela materialidade, tudo impulsionado pela imaginação.

E como o livro explica a abolição? Leiam: “A ratinha mais velha acordou e ouviu aquela choradeira. Lembrou-se do que tinha aprendido na escola. Com uma pena de ganso que arrancou de um espanador escreveu numa folha de papel: A partir dessa data, não haverá mais escravos na Ratolândia!”. Segue o “viva, viva, viva a princezinha”(sic), entoado com ênfase pelos camundongos.

A imaginação tem limites, concordam? A linguagem aqui é muito importante. A família imperial era dos ratos; os escravos, os camundongos. Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros, como dizia a letra de rock dos anos 80. A abolição foi promovida por uma princesa ratinha que acordou incomodada com o choro. A luta pela abolição foi reduzida a choramingação e os escravos, a pedintes. A princesa, vejam bem, lembra do que estudou na escola. O que poderia ter estudado, a não ser a legitimação da escravidão e o racismo estrutural? Seria muito anacrônico pensar em escolas no século XIX que ensinassem o pensamento abolicionista. Ademais, as princesas brasileiras nunca foram à escola, pois a educação era por preceptoras.

Ao ler essa estorinha histórica, as crianças compreendem a abolição como concessão bondosa e não conseguem perceber as continuidades do processo, que ocorreu sem as devidas reparações para os negros e negras, cujas consequências impactam vidas de milhões de pessoas no Brasil. Além disso, o protagonismo das resistências de escravizados e escravizadas é completamente apagado e lutas históricas, esquecidas, ou pior ainda, reduzidas à simples lamúria.

Acreditamos na educação como possibilidade de leitura a contrapelo: uma fonte cheia de problemas pode ser ótima para o debate. Não sei como a equipe atual se posiciona frente a esse material, que não é mais vendido ou distribuído. No site do Museu, o teatro de fantoches “Dom Ratão” continua a ser oferecido, mas seria necessário investigar em quais moldes. De fato, é igualmente importante analisar os contextos de prática das ações e isso certamente encontra na pesquisa da Magaly Cabral uma referência fundamental, pois ela acompanhou visitas escolares no projeto “Dom Ratão”, embasada por sólida referência da psicologia da aprendizagem.

Por ora, tudo isso é para lembrar que a abolição é uma narrativa em disputa. Que é atual, veja o debate sobre abolicionismo penal. Que é presente, veja a polêmica das políticas afirmativas. Que é urgente, veja os dados de desigualdade racial no país. Que é ético e político: até quando os/as negros/as serão representados como camundonguinhos choramingas? Até quando o Museu Imperial atualizará esse projeto com seu teatro de fantoches?

Para saber mais:

CABRAL SANTOS, Magaly. Lição das coisas (ou canteiro de obras) através de uma metodologia baseada na educação patrimonial. 1997. 137 p. Dissertação (Mestrado) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro.

COSTA, Carina Martins. A escrita de Clio nos temp(l)os da Mnemósime: olhares sobre materiais pedagógicos produzidos pelos museus. Educação em revista. [online]. 2008, n.47, pp.217-240. Disponível em:  https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982008000100013

 

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