O “Quarto de empregada”: uma lembrança que dói

por Carina Martins

Ontem uma criança brasileira morreu. E não foi de COVID 19, nem tiro de fuzil, nem violência doméstica, todos esses motivos que nos rasgam. Miguel da Silva, filho de Mirtes Renata Santana de Souza, ambos negros, morreu de negligência da patroa de sua mãe, empregada doméstica que passeava com o cachorro. Em plena pandemia, uma mulher branca, Sarí Cortes Real, não quis abrir mão dos serviços não essenciais: fazia as unhas e delegou a outra pessoa os cuidados com sua casa, filha e cachorro. Mirtes, assim como várias trabalhadoras domésticas, não tinha com quem deixar seu menino enquanto cuidava de outra família. Miguel era uma criança de idade semelhante à filha da patroa. Correu para encontrar sua mãe, entrou num elevador sozinho sob os olhos da patroa e caiu do nono andar.

Toda essa tragédia me fez lembrar do Muquifu (Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos), em Belo Horizonte, um museu comunitário no Morro do Papagaio. Conheci o Museu por meio de falas de colegas e também pela incrível dissertação de Kelly Freitas. Depois, em companhia da Profa. Lana Siman, pude me encantar presencialmente com a narrativa que trazia tanta alegria e dor,  tanta aridez e poesia, tanta arte e resistência. É um museu que todos/as deveriam conhecer.

Lembro-me, em especial, do impacto do Quarto de Empregada, já retratado por Aline Montenegro em post anterior NDÊ! – Trajetórias afro-brasileiras em Belo Horizonte . Ele estava lá, fisicamente, como um monumento à desigualdade estrutural de nosso país.

É o quarto de várias Mirtes, no canto da casa, contíguo à cozinha ou área de serviço, claustrofóbico, escondido. É o quarto da Val, personagem do “Que horas ela volta”, que sua filha tanto rejeita. É o quarto que não cabe Miguel.

quartinho de empregada muquifu
Detalhe do Quarto de Empregada, MUQUIFU. Fotografia de Aline Montenegro, 2019.

É o espaço no qual são guardadas as coisas obsoletas dos patrões. As coisas que não funcionam. As coisas. 

É também o espaço que muitas empregadas domésticas se apropriam para construir pertencimento com um calendário, um tecido, um bordado, algo que remeta a seu lar, .

 

A grande boneca negra sobre a cama impõe a presença ausente de muitas crianças, filhos/as da empregada. Ela me lembra mais uma vez de Miguel, de seu corpinho negro,  morto justo por ser invisível para a patroa de sua mãe. 

Cama do quarto de empregada
Cama de empregada, 1992. Pertenceu à Justina Dias Ferreira que a recebeu de presente de sua patroa, doando-a posteriormente para o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos – MUQUIFU. Exposição NDÊ!. Fotografia de Aline Montenegro Magalhães, 2019.

Os canudos de diplomas na ponta da cama evocam uma possível saída, uma esperança, um direito. Uma conquista recente, historicamente, assim como os direitos trabalhistas. Todos eles soterrados pelos tratores da ignorância, do ultraliberalismo e do racismo de um governo que odeia museu, cultura, patrimônio, mas, sobretudo, odeia Mirtes e Miguel. 

Esse quarto é, hoje e sempre, uma lembrança que dói. 

 

PARA SABER MAIS 

Site do Museu: http://muquifu.com.br/. Acesso dia 5/6/2020.

Texto de Cidinha da Silva: “Antologia do quartinho de empregada”. Disponível em: ttps://www.geledes.org.br/antologia-do-quartinho-de-empregada-no-brasil-por-cidinha-da-silva/. Acesso em 5/6/2020. 

Dissertação de Kelly Amaral de Freitas: “As forças culturais do Museu de Quilombos e Favelas Urbanos e o poder de ressonância nos objetos biográficos” (Belo Horizonte: UEMG/Orientadora: Lana de Mara Siman, 2016): http://fae.uemg.br/dissertacoes/TD_0_004.pdf. Acesso em 5/6/2020.

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