Derrubar, ressignificar, redimensionar, tutelar e não apagar jamais.

Por Aline Alonso

Historiadora UFRJ, pós graduada em Política Comparada, (ICS/UL), Mestranda em Global and local studies (Glocal) -Università degli Studi di Trento (UNITN)

Tenho acompanhado nas últimas semanas, de longe, todas as manifestações de revolta e repúdio ao assassinato do estadunidense George Floyd por um policial, que covardemente o sufocou com o joelho pressionando seu pescoço, diante de muitas câmeras de celulares de cidadãos escandalizados e de repetir 11 vezes que não conseguia respirar. Este policial, branco, ouviu George Floyd suplicar por ar inacreditáveis 11 vezes!

Estas manifestações de repúdio e revolta, que se espalharam pelo mundo, ocuparam todas as esferas do espaço público numa clara demonstração de que sem ‘justiça não há paz”. E lutar por justiça, igualdade e reparação deve pautar as ações civis, sociais de todos nós.

Uma das mais claras reações de que já chegamos ao limite da tolerância com o racismo foi a derrubada de estátuas de personagens históricas que ocupavam lugares de destaque na arquitetura urbana de várias cidades, e não raro foram erguidas com o trabalho de homens e mulheres escravizados, direta ou indiretamente.

Escravidão, tráfico de seres humanos, segregação, crimes em 2020, tolerados e destacados em estátuas e monumentos cada vez mais anacrônicos. Além de ofensivos num contexto de luta por igualdade e justiça.

Quando disse que assistia de longe, quis dizer não só que não escrevo como historiadora e sim como cidadã, e que no país onde vivo (sou radicada na Itália) essas manifestações (de derrubada de estátuas) não ganharam folego, e foram muitíssimo discretas.

Não quer dizer que não seja um tema muito sensível e delicado para a sociedade italiana. O país todo é um grande monumento.

O senso comum “concordava” que neste caso deveríamos abater o Coliseu, já que o Império Romano teve suas bases construídas graças ao trabalho escravo e servil.

Muitos políticos, à esquerda e à direita, condenavam os atos de “vandalismo” contra o patrimônio público e histórico, justificando que estas personagens eram “filhos de sua época”. Outra justificativa do senso comum, neste caso com mandato popular. Muitas frases feitas, muitos lugares comuns e pouco consenso e propostas efetivas para se contar o passado de dor e injustiça.

No meio de todo este turbilhão ouvi muitas vezes a palavra ressignificação e resolvi ficar com ela, na falta de uma opinião bem fundamentada, que me permitisse tomar partido nesta “ciranda das estátuas”. Por sinal, e apesar de todas as minhas críticas à sociedade italiana (e são muitas), tutelar, proteger, ressignificar… Talvez poucos países façam tão bem quanto a Itália.

Resolvi dividir com as leitoras e os leitores a história da Biblioteca de Schio, cidade histórica industrial, no nordeste italiano, na região pré alpina, emoldurada por colinas e pelas Pequenas Dolomitas. O mais importante polo têxtil da Itália pós unificação, berço do movimento operário, importante base da Cruz Vermelha italiana nas duas Grandes Guerras, e da resistência “partigiana’’ (partigiano, ou partigiani, no plural, significa “do lado de”. Na história italiana, significa aquele que estava do lado da resistência popular, paramilitar, ao nazifascismo. Um partigiano é um homem armado mas não um soldado).

Schio parece assumir uma posição de discrição total no mundo, quando na verdade “esconde” (ou protege?) muitos tesouros arqueológicos, históricos, arquitetônicos, paisagísticos, etc.

Não é à toa que o escritor Ernest Hemingway, após ter vivido por algum tempo na cidade, quando serviu na Primeira Guerra Mundial, dizia que “Schio, um dos lugares mais lindos da Terra”, conforme artigo publicado no jornal “Toronto Star Daily”, em 22 de julho de 1922.

Isso tudo só para citar do 800 para cá.

O palacete onde hoje funciona a Biblioteca Civica Renato Bortoli é originário do século XVII, construído por volta de 1611, e pertencia aos irmãos Baratto, que o deixaram em testamento a obra de caridade que deveria construir ali o primeiro hospital para os pobres da cidade.

Foto 1
Fachada da Biblioteca Civica Renato Bortoli. Foto de divulgação institucional

Depois que o hospital foi transferido para outro endereço, nos primeiros anos do século XIX, o palacete passou a abrigar várias repartições do serviço público municipal, incluindo a polícia e o cárcere local.

É aqui que ocorre um evento que marcaria para sempre a história contemporânea da cidade.

L’ eccidiodi Schio, ou o massacre de Schio, é um dos muitos capítulos da história do imediato segundo pós guerra ocorridos na pequena Schio. Alguns historiadores do período se referem a este episódio como una página obscura da história do país.

Na noite do dia 6 para 7 de julho de 1945, dois meses depois do fim da II Guerra, um grupo de expartigiani (a Resistência italiana) da divisão garibaldina Ateo Garemi, juntamente com alguns agentes da polícia auxiliar partigiana executaram, em Schio, um grupo de detentos encarcerados no presídio municipal, que hoje abriga a belíssima biblioteca da cidade. A ação foi uma represália ao assassinato do partigiano Giacomo Borgotto e pelo massacre de Pedeacala, executados respectivamente pelas brigadas pretas e os alemães em retirada.

Todavia neste grupo não havia somente soldados e oficiais do Exército Nacional, fascistas, alguns eram delinquentes comuns, “ladrões de galinha”, mulheres e até uma adolescente. Como não tinham uma relação de quais dos 99 presos fossem fascistas, nenhum documento que os apontassem, escolheram aleatoriamente mais ou menos 50 deles para serem fuzilados!

Foto 2
Placa em memória das vítimas do Eccidio di Schio. Foto da autora.

 

Alguns partigiani deixaram o local contrariados com a decisão pelo fuzilamento aleatório, que violava todas as leis marciais, e tomava nitidamente forma de vingança. Entre as 54 pessoas mortas, 14 eram mulheres, entre elas uma menina de 16 anos. Este episódio brutal, tão característico das guerras, marca a história da cidade e durante décadas foi motivo de confrontos e protestos.

A ultra direita italiana reivindica há décadas o direito de homenagear os oficiais e civis fascistas mortos e instrumentaliza politicamente o ‘Eccidiodi Schio” até hoje. Todos os anos, 7 de julho é o único dia em que vemos a pacata Schio repleta de policiais do pelotão de choque bloqueando o centro da cidade para conter o ânimo dos “carecas” vestidos de preto.

O centro da cidade, por alguns anos, já foi palco de confrontos violentos entre neofascistas e grupos antifas, como o Schio Antifascista.

No dia 18 de maio de 2005, 60 anos após o “eccidio”, as famílias das vítimas, as associações representativas dos “partigiani” e entes públicos locais assinaram o Pacto pela Concórdia Cívica, que tinha como objetivo reconhecer a dor profunda de ambas as partes, as feridas na consciência civil da cidade, uma vez que o episódio ocorreu após o fim da guerra, uma “ação injusta e insensata”, sem nenhuma finalidade que não a vingança. Por isso as partes decidiram renunciar à uma análise historiográfica do episódio.

Foto 3
Placa em memória ao Eccidio di Schio, que diz “não em memória ao ódio mas em sinal de piedade”. Foto da autora

Talvez por isso a bibliografia sobre L’Eccidiodi Schio é muito controversa e ideológica.

Hoje, neste local onde reinou a dor profunda, existe uma biblioteca cívica, um lugar muito agradável, de leitura e lazer, de conhecimento, lúdico, leve, conservado, RESSIGNIFICADO.

Renato Bortoli assumiu a biblioteca que hoje leva seu nome em 1953, e sua gestão inovadora acabou por se tornar uma metodologia, “bibliotecas bortolianas”.

A Biblioteca Civica Renato Bortoli, ou só Biblioteca de Schio, é ligada a rede de bibliotecas provinciais, onde é possível encontrar praticamente tudo que vocês imaginarem, inclusive muitos livros de importantes autores Brasileiros, de Paulo Freire, muito amado por aqui, a Darcy Ribeiro, Machado de Assis, Jorge Amado, Raquel de Queiroz e muitos outros.

Tem um jardim que convida a leitura ao ar livre com um bom café, ou chá com limão. Tem um canhão fundido em 1715, em Bérgamo, que,provavelmente, serviu à Marinha da República Veneta. Você pode vir só para ler os jornais e revistas, assistir um filme, ou apreciar a arquitetura do século XVII e as obras de arte no espaço interno.

Foto 8
Canhão Veneziano, fundido em Bergamo, em 1715, para a então República Veneta. Ao fundo, meu filho Davi, fazendo pose de guerreiro.

Vale a pena conhecer!

Nota Explicativa

Para saber mais:

L’eccidio di Schio: un massacro a guerra finita

Clique para acessar o bortol.pdf

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