A orelha da estátua: sobre o que nos falta

por Carina Martins

Há alguns anos, conheci o livro “A orelha da estátua”, escrito por Bonifácio Vieira e publicado em 1995 pela Editora Formato. Em pesquisa na internet, não encontrei mais referência sobre o autor, infelizmente, apenas outras obras publicadas. Caso algum/a leitor/a possa partilhar, ficaremos felizes!

capa orelha
Capa do livro “A orelha da estátua”. Ilustração de Mario Suarez, 1995

A literatura para crianças desperta minha atenção desde minha infância e até hoje leio, coleciono e aprecio imensamente esses objetos-textos-imagens tão ricos e singelos. Por isso, quando Aline imaginou a série “Memórias em disputa, monumentos em litígio”, a primeira lembrança que me ocorreu foi esse livro.

O livro narra a história de uma estátua na praça de uma “cidadezinha de um poderoso país do norte”. Trata-se, portanto, de um local desterritorializado e atemporal na imaginação do autor, sem referências a qualquer experiência histórica específica. O ilustrador Mario Cruz imaginou a praça da mesma forma, com referências genéricas na arquitetura em seu entorno. É possível observar, no entanto, uma criança no skate e carros ao redor, o que indica uma cena contemporânea. Ao redor da praça, na qual a estátua ocupa a centralidade, observamos uma construção com colunas greco-romanas, que remete, pelo tamanho e posição, a um espaço de poder; uma igrejinha indicada pela cruz no alto da torre e um prédio comercial, com as placas “Rádio da cidade”, “TV da cidade” e “Dancing da cidade”, afora casas residenciais de estilo impreciso.

praça da orelha
Ilustração de Mario Suarez, 1995.

Pois bem. O narrador nos conta que em um belo dia alguém percebeu que faltava uma orelha na estátua da praça. A partir daí, as suspeitas sobre quem poderia ter depredado circularam no boca a boca e na imprensa. A denúncia do roubo atingiu, literalmente, todo o mundo, provocando uma onda de nostalgia que gerou a produção de livros, filmes, mercadorias e, pasmem, até uma disciplina na escola chamada “Orelhês”. O autor também aponta o surgimento de uma seita “Orelha Sagrada”, dentre outras tantas iniciativas. Evidentemente, tal seita criou sua própria estátua para seus cultos religiosos.

Até que surge um homem que conta sua história. Quem tinha feito a estátua era seu avô e lamenta que ela nunca tenha recebido atenção do povo, pois caso contrário … saberiam que sempre teve apenas uma orelha!

Esse livro nos ajuda a pensar uma série de questões teóricas em relação ao patrimônio e suas disputas. Andreas Huyssen (2001) provoca em relação à primeira delas: nada melhor para provocar o esquecimento do que um monumento. De fato, ao pensar os usos da cidade, podemos refletir sobre nossa própria relação com a estatutária. Quantas conhecemos? Quais produzem sentido? Como elas são apropriadas na dinâmica cotidiana? A estátua da cidadezinha do país do norte nunca foi notada e passou a ter importância na medida em que foi percebida uma suposta “falta”. Ou seja, foi o processo de denúncia da depredação ou do roubo que desencadeou o interesse. Em nenhum momento, sabemos quem era o homem ou qualquer indício de sua memória, tampouco sobre o processo de construção e manutenção da mesma na praça principal. (ver Monumentos e insurreição popular: põe no museu ou deixa quebrar? )

Uma dimensão muitas vezes esquecida nas análises apressadas sobre “tira não tira” e “quebra não quebra” é justo o esquecimento inerente a qualquer processo de memória, seja ele relacionado às quaisquer forças políticas: Estado, movimentos sociais, capital ou sociedade civil. Compreender o patrimônio como arena de disputa, com muitas e assimétricas forças incidindo sobre sua construção, preservação e usos, pode ser um caminho oportuno para o debate. Todo e qualquer patrimônio intenciona lembrar. Todo e qualquer patrimônio intenciona esquecer. Todo e qualquer patrimônio tem, portanto, sua “gota de sangue”, sua dinâmica de poder.

Dito isso, é importante pensar as relações com o patrimônio numa dinâmica processual, como enfatizaram os/as autores/as de Ciranda dos monumentos em Buenos Aires, Por uma ciranda sem degolas e esquartejamentos e Derrubar, ressignificar, redimensionar, tutelar e não apagar jamais. Uma estátua é um produto desse campo de forças, mas observar seu processo é pedagógico e político. O avô do testemunho do livro criou a estátua para quem? Quem a encomendou? Em qual temporalidade? Por que a construiu sem orelha? A pessoa homenageada não tinha orelhas? O que significa a ausência de uma orelha na época da construção? E seguimos, como a historiadora ou cidadã curiosa: como as pessoas se relacionaram com ela no tempo e no espaço? Quais foram seus usos ao longo do tempo? Houve rituais cívicos relacionados a ela? Em que mudaram? Por que foi preservada?

Nestor Canclini (1994), em um texto de referência, nos fornece chaves igualmente importantes para indagar o patrimônio em sua complexa relação com os atores envolvidos na cadeia de construção, preservação, apropriação e disputa. No livrinho, percebemos diferentes reações à denúncia da perda. Uma delas é a ritualização, a busca pela conexão com o imaterial pela seita “Orelhas Sagradas”, que pretendia acessar o sagrado por meio da força do material.  Não é isso que fazemos com os objetos de culto? Não é isso, por exemplo, que um cristão espera na Capela Sistina? Não é isso que um fã procura nos objetos de idolatria?

Outra reação foi de produzir mercadorias. Isso me lembrou a canequinha de Lênin vendida no Memento Park (Um cemitério de estátuas indesejadas). Transformar imagens de líderes comunistas em mercadorias capitalistas! No caso de nossa estória, é fácil imaginar canecas, bottons e chaveiros da orelha perdida. A mercantilização que devora memórias regurgitando “lembranças”, que são muitas vezes mais sinais de consumo e turismo do que experiências ou relações simbólicas. Como diria Beatriz Sarlo, colecionamos o ato de comprar. Por outro lado, objetificar a falta, a perda, sem atenção ao conjunto, ao contexto, aos próprios mecanismos de invenção patrimonial.

Importante pensar, ainda, na potência e no medo da destruição, tão bem retratados por Marcelo Abreu (Estátuas em transe: iconoclasmo e assimetrias na produção da história). Como vimos ao longo da série, a iconoclastia tem uma longa tradição. Gostamos de pensá-la para o que nos desagrada. Eu confesso que a estátua do comerciante de escravizados pichada, removida, rolada nas ruas de Bristol me provocou muita alegria, uma catarse coletiva. Tinha lido sobre as tentativas anteriores de abaixo-assinados para removê-la. O Estado não ouviu. A sociedade foi lá e fez. Talvez não fosse a minha reação em outro momento histórico, podendo ocupar as ruas com meu corpo, mas a cada rolada na estátua escutei muitos berros, inclusive o meu. Fundo do rio, um lugar simbólico porque água é fluxo, é vida. Um dia, certamente, essa estátua irá reaparecer. A partir dela, muitas histórias poderão ser novamente contadas e conectadas. O direito à memória e o direito à cidade nos inspiram aos diversos usos do patrimônio e seus campos de conexão e representatividade, de promoção do diálogo democrático. Percorrer as cidades, ouvir experiências, provocar encontros por meio de nossa inscrição como corpo, captando, agindo e expressando com todos os sentidos. Deleitar com a arte que performa, desloca, rompe e promove festas de renovação a cada ato de inscrição. Afinal, tudo que é sólido se desmancha no ar, na captura, no afeto, na comunhão.

Por fim, o que me interessa, na falta que nos faz a falta, é reconhecer que ela é inerente, constitutiva, inevitável. Me interessa, portanto, tanto as presenças como as formas de representar as ausências. O que me interessa, nas memórias em disputa, é ouvir, dialogar e ensejar a polifonia. O que me interessa, nos monumentos em litígio, é provocar, pela educação, a pulga atrás da orelha.

 

REFERÊNCIAS:

CANCLINI, Nestor. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. .n.23, 1994.

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.

SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-Moderna: intelectuais, artes e videocultura. 3ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.

VIEIRA, Bonifácio. A orelha da estátua. Belo Horizonte: Formato, 1995.

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