E o patrimônio?

por Carina Martins e Aline Montenegro 

Há pouco tempo, que a pandemia faz parecer outra vida, um presidente da República inominável disse que o progresso não podia parar por conta de cocô petrificado de índio em uma reunião ministerial gravada, sem qualquer interpelação. Ah, não, houve uma: o ministro da Educação aproveitou a deixa para dizer que odeia a expressão povos indígenas, “odeio, odeio”, parece que um pouco antes do ministro do Meio Ambiente apresentar a ideia de passar ordenamento infralegal (leia-se, ilegal) durante a pandemia, aproveitando que as manchetes estavam concentradas na morte de milhares de brasileiros/as. 

Imaginamos que o presidente se referia, com toda sua ignorância, ao rico patrimônio arqueológico brasileiro, que hoje é pesquisado arduamente em cerca de 24 mil sítios arqueológicos cadastrados no IPHAN, alguns deles reconhecidos mundialmente, como o Parque Nacional Serra da Capivara. 

“Cocô de índio” é uma expressão repugnante, em todos os sentidos. Para o presidente, demonstra todo seu descaso com os povos indígenas, o que é reiterado por sua omissão em relação ao avanço da COVID, ao desmonte de políticas públicas e da própria FUNAI e, claro, a política ambiental que tem provocado, entre boiadas e queimadas, a destruição de formas de viver, saber e interagir tão diversas das populações indígenas. 

É um genocídio, como aponta o ministro do STF Gilmar Mendes, cuja denúncia foi tão repudiada pelo Exército, parceiro e fiador desse projeto de nação que mata e deixa morrer todos/as que são considerados/as atraso, sejam indígenas, favelado/as, ribeirinhos, negros/as, quilombolas. Estamos falando de um Estado que nega os direitos humanos e compreende a democracia como o governo da minoria autoritária. 

Se as heranças mais profundas dessa nação, representadas pela riqueza de seu patrimônio arqueológico, são reconhecidas literalmente como “merda” pelo mais alto cargo executivo, podemos imaginar que tipo de nacionalismo é esse, tão esbravejado e tão incoerente com as práticas entreguistas e difamadoras de nossa cultura, de nossa arte, de nossos saberes e de nosso patrimônio.

A mudança do IPHAN, órgão cujas origens remotam à década de 1930, responsável pela pesquisa, salvaguarda e políticas públicas para o patrimônio nacional, para o Ministério do Turismo, no início dessa gestão, é estarrecedora. Submete todo o campo aos interesses do mercado, além de perceber os museus como produto turístico a ser vendido, claro, com lucros. Pensa a cidade com o olhar do mercador: quem dá mais, leva. 

E o patrimônio? Perguntamos em alusão ao livro célebre de Aloísio Magalhães. Atualmente, ele é gerido, praticamente de cabo a rabo, por pessoas sem qualquer relação com o campo: basta ser alinhado ao governo e à chamada guerra cultural. Pode ser blogueiro, atriz, filósofo sem formação, amigo de policial, amigo do amigo, pode tudo. Menos, claro, ser pesquisador e expertise da área. Compreensível em um governo eleito a base de mentiras, inclusive a de que o critério de escolha dos cargos seria técnico. Tsc, tsc, tsc.

Nesse contexto tão desolador, o ciclo de “Oficinas Democracia e Patrimônio” reuniu cinquenta pessoas interessadas no tema para pensar o que é patrimônio. Um dos resultados é o vídeo editado por Alice Mello e Sofia Carneiro a partir das fotografias e narrativas apresentadas em sala pelos participantes.

Foram apresentadas imagens que vão desde o patrimônio individual, afetivo e familiar, passando por edificações e sítios urbanos tombados, chegando aos saberes e fazeres reconhecidos (ou não) como patrimônio imaterial há vinte anos. Um mosaico de imagens que indica o que se consideram patrimônio e o que deveria ser considerado. Souvenir de viagens, lembranças de família, festas, manifestações populares, instituições, estátuas e espaços das cidades, inclusive que deixaram de existir, valorados por sua importância no processo de construção de identidades e memórias individuais, coletivas ou históricas.

Nem tudo que evoca lembranças é patrimônio, assim como nem todo patrimônio constrói memórias e identidades para todo mundo. E foi a partir dessa reflexão que o conceito de patrimônio foi construído coletivamente nos nossos encontros, com base na história das políticas públicas de preservação, seus agentes, suas escolhas e suas noções. O que é e o que não é patrimônio? Por que? Foram perguntas geradoras do debate sobre a importância da democracia no processo de construção do patrimônio… sim, patrimônio é processo e deve ser problematizado como tal, assim como a democracia. Por que, em determinado momento um passado é valorizado para fundamentar as políticas de preservação e outros são silenciados? O que isso pode nos dizer atualmente, quando estátuas que evocam um passado violento e opressor são contestadas no espaço urbano?

O que nos diz a disputa de memórias em determinados lugares da cidade que tanto dizem respeito a um passado de exercício do poder quanto aos movimentos de luta e resistência de escravizados e negros? Um exemplo é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, que abriga o Museu do Negro, no qual a “redentora” Princesa Isabel é enaltecida ao lado de Zumbi dos Palmares e de intelectuais abolicionistas. Outro exemplo é o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MT), instalado no Sobrado do Alferes, que foi durante muito tempo residência de uma família italiana muito influente na cidade e atualmente promove exposições que divulgam e valorizam o protagonismo de personalidades negras na história da música de Mato Grosso, como o do mestre Ignácio.

E assim, seguimos na incessante tarefa de construção do patrimônio e na defesa da democracia nesse processo, que nos ajuda a nos apropriar do patrimônio também como ferramenta para a conquista de direitos, a valorização da vida  e o respeito à diversidade.

Segue a lindeza desse vídeo! Agradecemos a todos/as que participaram.

https://exporvisoes.com/wp-content/uploads/2020/08/Aula-1-o-que-é-patrimônio-para-você.mov

 

 

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6 comentários Deixe um comentário

  1. Parabéns pelo texto Carina Martins e Aline Montenegro, verdades lancinantes nesse transe genocida, lamentável e revoltante! Sinto-me representado nas palavras de vocês, sou pesquisador na área de sociologia da cultura e museologia, mestrando na UFG, abraço virtual, saudações acadêmicas!

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