Memórias em ritmo de Axé

Por Aline Montenegro Magalhães

Depois de uma visita ao Muquifu embalados pelo RAP, o convite agora é para uma viagem inspirada no documentário Axé – canto do povo de um lugar, de 2016, recentemente lançado no Netflix.

Este texto é dedicado à “Magalhada” e ao “DiaMontenegro”, minha régua e meu compasso, o patrimônio mais precioso que a Bahia me deu. É também minhas boas-vindas ao Davi de Lima que acabou de chegar (muitos corações)!!!!

Quem me conhece sabe que todo ano saio de férias por esses dias, para participar de confraternizações da família na Bahia, lugar onde a maioria reside e todo mundo se reúne. Onde passava as férias na infância e na adolescência. 

Porém, em 2020 fomos impedidos de cumprir esse ritual cheio de alegria, afetos e música, mantendo-nos isolados e confinados para garantir a vida e, “para o ano” estarmos juntos novamente. Foi assim que, para trabalhar a saudade e me embalar em recordações, me atraquei com uma bacia de pipoca para assistir ao documentário “Axé – canto do povo de um lugar”.

Não é a intenção aqui fazer uma análise crítica do filme, mas sim, compartilhar a experiência de assisti-lo, confrontando memórias e impressões sobre o tema abordado.

Uma retrospectiva preocupada em identificar origens, pais e mães do estilo musical remeteu-me às férias que começavam no Natal e, às vezes, só terminavam depois do carnaval. Aos encontros com tias, tios, avô, avós e, principalmente, primas e primos que sempre ensinavam uma dança nova pra gente. O fricote, ou o “tititi” de Luís Caldas, o tortinho da Banda Mel, a dança da galinha de Sarajane e a lambada de Beto Barbosa, entre tantas novidades. E bailávamos ao som de ritmos que misturavam batidas e harmonias muito originais, inspiradas nos toques do candomblé, no frevo, no reggae, no mambo, no samba de roda… E cada temporada por lá ficava marcada por uma trilha sonora: Chiclete com banana, Olodum, Ilê Aiyê, Gerônimo, e por aí vai…

Achava estranho que, ao retornar das férias, cantava as músicas para meus colegas e ninguém as conhecia, às vezes me olhavam até como se eu estivesse cantando algo de outro planeta. É que, à época, lá por meados dos anos de 1980, não chegavam às rádios do Rio de Janeiro, onde reinavam Michael Jacksons, Madonnas, e as trilhas sonoras das novelas. Uma banda, um cantor tornavam-se conhecidos após se apresentarem no programa do Chacrinha, como bem mostra o filme. E Luís Caldas, considerado por Caetano Veloso o filho primogênito do gênero, nesse sentido foi um estouro. 

Prolongando um pouco as férias, minha maior diversão era tentar decorar as letras de protesto que faziam pontes entre as mazelas vividas no presente e as histórias da nossa ancestralidade africana, clamando por justiça e igualdade social, pelo fim do racismo e do apartheid na África do Sul. Eram longas e cheias de palavras estranhas ao vocabulário de uma criança de nove anos. “Madagascar Olodum”, cantada por Marinês da Banda Reflexu’s e “Faró, divindade do Egito” na voz de Margareth Menezes e do Olodum eram as minhas preferidas. Esta, inclusive, surpreendeu os produtores Wesley Rangel e Nestor Madrid com seu sucesso. Afinal, como contaram no documentário, não esperavam que uma letra tão grande e complexa caísse no gosto e na boca do povo.

Hoje me questiono sobre o papel pedagógico que essas músicas tiveram na construção da identidade baiana como uma identidade negra. Afinal, quantos de nós não aprendemos ou nos interessamos em aprender sobre a cultura Malgaxe e a história egípcia e do Senegal, enquanto dançávamos ao ritmo do que se chamou pejorativamente de “Axé music”, como relatou o jornalista Hagamenon Brito e que depois assumiu essa identidade de forma bastante positiva e “vendável”?

Ao assistir à preciosidade documental em vídeos selecionados diretamente do fundo do baú, não sabia se continuava com a pipoca a rebolar o queixo ou se me rebolava toda, pulando que nem pipoca no carnaval da Bahia. 

Foi já adolescente que vi a música baiana bombar mais uma vez por essas bandas do Rio de Janeiro, para nunca mais (nunca mais é muito tempo, né?) sair de cena. O ano era 1992 e Daniela Mercury, conhecida e reconhecida pelo próprio Vovô do Ilê Ayê como a branquinha mais pretinha da Bahia, despontava com sua potência vocal e presença de palco. 

Não me esqueço a emoção que senti quando, em uma festa tocou as músicas “O mais belo dos belos” e “crença e fé”. Eu não estava mais sozinha a cantar e dançar. Todo mundo cantava e dançava. Todo mundo conhecia e curtia. E a impressão que tenho é que dali pra cá o Axé se firmou e ganhou o mundo.

O triste dessa história é que a fama e o sucesso foram proporcionais ao embranquecimento e à pasteurização das produções, movidos a jabá e pelos interesses da indústria fonográfica e da empresa dos blocos de carnaval. A gente assiste a esse processo claramente no decorrer do documentário.

Que Bahia estava sendo divulgada, conhecida e consumida nas “músicas baianas” ou no “axé music”? Não era mais a Bahia do Olodum ou do Ilê Aiyê que passaram a ser tomados como “invenção de tradição” para dar sentido e peso à produção de outra coisa. E o carnaval de Salvador tornou-se uma festa cara e seletiva, com a venda de abadás a peso de ouro distinguindo quem podia pagar (em sua maioria turistas  brancos de classe média, que ficava dentro das cordas) de quem não podia, a “baianidade nagô” “pipocando” livremente fora dos limites de “proteção”. 

Eu não perdoo a Bahia por essa segregação numa festa popular. Não perdoo a privatização do espaço público em favor de uma minoria e da mercantilização agressiva da folia. Afinal, o canto não é do povo desse lugar? De que povo? Por isso, estou com o carnaval carioca e pernambucano e não abro.

Bom, termino por aqui com as palavras de Ninha, cantor negro que só aparece nos dez minutos finais do documentário. Sua voz é lacradora e bem em sintonia com as ideias que compartilho sobre os rumos desse gênero musical, desse movimento cultural tão singular e plural chamado “axé music”, que segundo as próprias falas do documentário, teria sucumbido à ganância e ao individualismo.

“O que fez muitos empresários enriquecer, muita gente ficar rica foi essa cultura [apontando para o terreiro]. E quem fez a cultura tá pobre, tá ‘lenhado’. Por que foram sugados, sugados, sugados, sugados. Sugaram a laranja e jogaram o bagaço fora”.

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14 comentários Deixe um comentário

  1. Parabéns, Aline! Muito bom o texto. Boas colocações e sem querer defender o indefensável: acho que o carnaval da Bahia assim como todas as festas que tentaram capitalizar foi se tornando elitista sim mas hoje assim como no Rio já se tem o movimento de contra em que todos querem sair na pipoca e já pouquíssimos baianos saem em blocos ficando esse lugar principalmente para os turistas que, se forem antenados e com objetivo de vivenciar a cultura, TB já estão percebendo aos poucos que a diversão esta fora das cordas e dos camarotes. Mais uma vez parabéns pelo texto.

  2. É Line! A Privatização piorou, agora eles querem tirar a corda e investir nos camarotes. As ruas não tem mais espaço pra a pipoca, na avenida as pessoas ficam espremidas entre camarote e corda, tá horrível, Ondina a mesma coisa. Daniela Mercury deu até uma entrevista falando sobre isso. E é triste ver que a cada ano que passa os monopólios das cervejas e os empresários da música, estão cada vez mais destruindo a imagem do carnaval de Salvador como a festa do povo da pipoca.

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