TEBAS: negro, arquiteto, mas ainda, ex-escravo

por Gabriela Dias

Nos dias atuais, são muitos os questionamentos acerca da existência do racismo que, ainda, permeia o modo de pensar de grande parte da sociedade. Assim como você, nos questionamos: como pode, em pleno século XXI, termos que falar de situações brutais e ignorantes, como é o caso do preconceito racial? Por que, ainda, existe o racismo, porque ele é tão recorrente e, porque muitas pessoas negam a sua existência sem ao menos perceber o preconceito que está na ponta das suas línguas, no seu modo de pensar, falar e agir?

Existem diversas explicações para essas perguntas, que vão desde o modo de pensar trazido pelas doutrinas raciais criadas pelo homem branco sobre o negro ao longo da história, até a perigosa desinformação e, quem sabe, o prejulgamento ou a falta de senso de coletividade.

Joaquim Pinto de Oliveira, melhor conhecido como Tebas, foi o ex-escravo que pôde atuar no ofício de arquiteto, com a sorte de ter tido seu trabalho documentado e, de certa forma, preservado. Muitos foram os questionamentos acerca da sua identidade e até mesmo do seu nome, isso porque, grande parte dos escravizados não costumavam possuir sobrenomes, quem dirá reconhecimento pelos seus trabalhos.

Entretanto, de acordo com muitos estudos sobre as documentações que resistiram ao tempo, pode-se dizer que Tebas, homem negro, escravizado, alforriado por volta dos seus 58 anos de idade em 1779 e, que assim como muitos africanos, dominava diversas técnicas, incluindo a da construção, obteve oportunidade de trabalho em troca da sua “liberdade”. 

Tebas foi levado à São Paulo pois o seu senhor via na cidade a possibilidade de trabalho visto as habilidades do escravo. E, por isso, Joaquim atuou nos projetos das obras da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Assunção e São Paulo – Antiga Catedral da Sé (1778), no Mosteiro de São Bento (1766), na capela da Ordem Terceira de Seráfico São Francisco (1783), na capela da Ordem Terceira do Carmo (1772), e no Chafariz da Misericórdia (1792), o primeiro público da cidade de São Paulo, mas demolido em 1866.

Tebas não foi necessariamente uma exceção ou até mesmo um prodígio. Não foi o único homem negro escravizado a conquistar sua “liberdade” através do seu trabalho, ou a ter destaque por possuir habilidades na cantaria de pedra, diferente dos europeus que trabalhavam apenas com a taipa de pilão (técnica mais limitada); não foi o único negro artesão ou o único que sabia ler e escrever. Mas infelizmente, foi um dos poucos a receber algum reconhecimento pelo seu trabalho, deixando sua marca na história do país, na história da arquitetura, na história do patrimônio, mesmo mais de um século depois da sua morte.

O racismo estrutural não permitia que se desse às obras e aos projetos elaborados os nomes dos escravos, muitas das vezes, os verdadeiros projetistas e construtores. Dessa forma, todo o prestígio era totalmente transferido aos senhores, assinantes das obras, deslegitimizando e apagando a autoria das obras. Tebas, assim como muitos outros, foram vítimas desse fenômeno, como é dito sobre o Mestre Valentim, no trecho do livro “História da Casa do Trem”, de Antonio Pimentel Winz, edição do Museu Histórico Nacional, de 1962: “Monsenhor Pizarro silencia sobre o autor de tão belas obras artísticas; apenas tece elogios, aos diversos governantes e vice-reis que ordenaram esses serviços.”

O mais “engraçado”, se é que você me entende, é que por mais que a cultura africana fosse considerada abominável, que os homens e mulheres negros fossem tratados como objetos, assinalados apenas como força de trabalho e jogados nas ruas à própria sorte quando não “valiam” mais, na verdade, os reais professores, eram os homens de origem africana. As inovações tecnológicas adotadas nas construções, nos sistemas de água, nas artes, na medicina natural, na vestimenta foram trazidas e aplicadas por eles. O que seria das cidades e do colonizador sem os escravos, então?

Esse assunto é abordado tanto no livro “Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata” de Abilio Ferreira e convidados, em parceiria com o IDEA – Instituto para o Desenho Avançado e com o CAU-SP – Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado de São Paulo, lançado em 2019, como também é trazido pelo documentário “Emicida: AmarElo – É tudo pra ontem” lançado em 2020.

O documentário, trata do combate ao racismo e ao apagamento dos negros na história do Brasil, nos convidando a reconhecer o protagonismo negro na construção da sociedade como um todo, além de reagir e denunciar à violência racial todos os dias. Isso por meio de relatos e, principalmente das mais diversas formas de expressão cultural, como por meio da arte, da política, da música, do rap, seja no ambiente digital, seja nas favelas ou centros urbanos. Compartilha histórias e trajetórias de negras e negros como Lélia Gonzalez e o próprio Tebas, não apenas no sentido de desconstruir estigmas e estereótipos, mas fundamentalmente, para nos encorajar a lutar por reparação, seguindo essa máxima de nossa ancestralidade: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”.

 
Imagem 1
O Chafariz da Misericórdia, em desenho de José Whasth Rodrigues, (1871-1957).
 
Imagem 2
Convento do Carmo e suas duas igrejas (foto de Militão Augusto de Azevedo, década de 1860), localizados na atual Avenida Rangel Pestana, ao lado da Praça da Sé.
 
Imagem 3
… hoje resta apenas a Igreja da Ordem 3ª do Carmo (foto de Abilio Ferreira, ao lado); mais tarde tornar-se-á público que os ornamentos e os arcos de pedra da fachada são obra de Joaquim Pinto de Oliveira Tebas.

*Imagens retiradas do livro “Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata”.

Referências:

FERREIRA, Abilio. Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo: IDEA, 2019.

EMICIDA: AmarElo – É tudo pra ontem. Direção de Fred Ouro Preto. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2020. 1 vídeo (1h 29min).

WINZ, Antonio Pimentel. História da Casa do Trem. Brasil: Museu Histórico Nacional, 1962.

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