De cacos, poesia e sonhos

Por Aline Montenegro Magalhães e Carina Martins

                    

Já não coleciono selos. O mundo me enquizila.

Tem países demais, geografias demais.

Desisto.

Nunca chegaria a ter um álbum igual ao do Dr. Grisolia,

orgulho da cidade.

E toda gente coleciona

os mesmos pedacinhos de papel.

Agora coleciono cacos de louça

quebrada há muito tempo.

Cacos novos não servem

Brancos também não.

Têm de ser coloridos e vetustos,

desenterrados – faço questão – da horta.

Guardo uma fortuna em rosinhas estilhaçadas,

restos de flores não conhecidas.

Tão pouco: só o roxo não delineado,

o carmezim absoluto,

o verde não sabendo

a que xícara serviu.

Mas eu refaço a flor por sua cor,

e é só minha tal flor, se a cor é minha

no caco da tigela (…)

O caco vem da terra como fruto

a me aguardar, segredo

que morta cozinheira ali depôs

para que um dia o desvendasse.

Lavrar, lavrar com mãos impacientes

um ouro desprezado

por todos da família. Bichos pequeninos

fogem do revolvido lar  subterrâneo.

Vidros agressivos

ferem os dedos, preço

de descobrimento:

a coleção e seu sinal de sangue;

a coleção e seu risco de tétano;

a coleção que nenhum outro imita.

Escondo-a de José, por que não ria

Nem jogue fora esse museu de sonho.

Carlos Drummond de Andrade, 1979.

Esse poema faz parte da trilogia “Boitempo” de Carlos Drummond de Andrade. Há vários trabalhos acadêmicos sobre o conjunto de escritos do poeta refletindo sobre si, memórias e passado.  Encontramos com ele num momento da vida que também nos sentimos cacos: estraçalhadas pelo contexto atual e todas as violências cotidianas que insistem em machucar. A escrita, a leitura, a arte e a educação funcionam, então, como remendos da alma. 

A poesia nos fez refletir sobre o que vimos chamando de “pedagogia do fragmento”. A História e seu ensino, muitas vezes, escavam o ouro desprezado. Em uma perspectiva historiográfica renovada, as camadas de esquecimento podem ser lavradas com cuidado e paciência pelas mãos do/a historiador/a. Sabemos quanto desse trabalho tem sido fundamental para o reconhecimento da pluralidade de formas de acessar, interpretar e narrar o passado.

Quais seriam os sinais de sangue presente no museu? Quais são os riscos de tétano que nós enfrentamos em nosso ofício? O ensino de História, concebido aqui também como dimensão do historiar, atua de forma indiciária: por meio de fontes, procura ler a contrapelo, perceber silêncios, contextualizar, comparar e hipotetizar, tendo em vista também o próprio ato de documentar e preservar como tentativas de inscrições permeadas por poder. Atuamos, tal como o poeta, com cacos. São vestígios que permaneceram por processos de escolhas, projetos, desejos ou mesmo fortuitamente. Nos casos aqui analisados, percebemos também descaso, ausência de direitos, apropriações, mutações. De fragmentos de estátuas aos objetos queimados, temos uma vasta gama para ensinar e aprender a pensar historicamente, no enfrentamento de questões contemporâneas que marcam nossos dedos com o medo da morte.

A filósofa norte-americana Susan Buck-Morss analisa que

os fragmentos históricos são o resto de uma explosão. Liberados pela explosão de memória oficial, os fragmentos da história são preservados em imagens. Eles retêm a proximidade da experiência original e, com ela, a ambiguidade. Seu significado é liberado somente em uma constelação com o presente. (BUCK-MORSS, 2018, p.28)

As reflexões da autora nos ajudam a pensar como os museus, em sua historicidade, são e foram depósitos de barbárie e seleção. A explosão literal do Museu Nacional pelo incêndio de 2018 nos ajuda a perceber o que a autora aponta como desafio do “presente”, na chave da dádiva, do passado. E, para o ensino de História, reforça o sentido do método retrospectivo, de partir do presente para tensionar e vibrar as temporalidades, na perspectiva de liberação, sempre em disputa do significado. 

Sabemos que, ao contrário do olhar infantil da criança presumida no poema, em nenhum caco há sentido em si, imanente. Como nos alerta Francisco Régis, “(…) a saída, desse modo, não seria o esquecimento, ou simplesmente o acirramento dos combates mnemônicos, mas a história atenta a esse processo social e conflitivo dos modos pelos quais as recordações circulam ou deixam de circular”. (RAMOS, 2020: p.88). Cabe aos museus, na sua função social de promover a memória assim como produzir e divulgar a história, tornar fontes de conhecimento aquilo que foi escolhido para nunca se esquecer, bem como lidar com a reflexão crítica sobre os próprios processos de construção da identidade e seu papel como lugar de memória. Ao fim e ao cabo, o Museu não fugirá ao compromisso de contar a sua própria história no esforço contínuo de construção do passado e do próprio presente. Dessa forma, professores/as de História podem também escavar os cacos dessa historicidade. 

Assim, o olhar para fragmentos e escombros pode permitir a polifonia e o trabalho sobre esquecimentos e silenciamentos. Nesse sentido, professores/as podem explorar o quanto o silêncio também nos ensina. Seja pela destruição intencional, seja pelo desmonte de políticas públicas que defendam o direito à memória, esses fragmentos também liberam carga tóxica: podem ser lidos como uma tentativa de ferir tecidos comuns, ainda que plurais. 

O poeta Carlos Drummond de Andrade nos inspira a pensar a coleção de cacos de louças como uma metáfora de outro projeto de memória em um mundo que enquizila. Ele também nos lembra do ato de lavrar como constitutivo da coleção. Nesse sentido, defendemos um ensino de História que considere o percurso investigativo como fundamental para a formação dos olhares e leituras do mundo. Nosso ato de lavrar exige ferramentas apropriadas e disposição ao método, à vagarosidade, ao prazer das pequenas descobertas. Muitas vezes, sabemos, que as demandas curriculares por conteúdos factuais e conceituais tem nos impingido a priorizar apenas os cacos e não a lavra. Entretanto, como preparar nossos estudantes para outros cenários e para a fricção constante do presente em relação às temporalidades se não partilharmos o caminho do ofício?

“Escondo-a de José, por que não ria nem jogue fora esse museu de sonho”. Eis aqui os cacos apontando para futuros sonhados. Em livro póstumo, Paulo Freire nos sacode para o potencial do sonho como antecipação do saber de amanhã e nos previne contra o pouco caso da imaginação no ato de conhecer. Em suas palavras, “seres programados para aprender e que necessitam do amanhã como o peixe da água, mulheres e homens se tornam seres “roubados” se se lhes nega a condição de partícipes da produção do amanhã” (FREIRE, 2014, p. 77). Imaginar outras coleções, preservá-las do riso e do descarte, podem ser caminhos para uma postura atitudinal no ensino de História que valorize a imaginação e a capacidade de se mobilizar na defesa de outras narrativas, fugindo do fatalismo neoliberal. 

Assim, como proteger essas coleções singulares do riso e do descarte do senso comum, que hoje infelizmente ocupa protagonismo no atual governo? Como a escola pode estimular e atuar nas micro-lavras de utopias? Esperamos que as resistências, reinvenções e apropriações apresentadas possam inspirar uma retomada da perspectiva do patrimônio como processo permeado de disputas, chamas e sangue. Que, assim, possamos atuar com o cuidado que essas coleções de cacos que se apresentam nas escolas e na sociedade sejam apreciadas com o olhar da novidade, da curiosidade e do assombro, em direção a concepções mais plurais e democráticas de patrimônio. Essas perguntas, afinal, dividimos com vocês, na certeza de que “alerta, desperta, ainda cabe sonhar”. 

Indicação:
Trecho da “Cantata para um bastidor de utopia”, peça teatral
da Cia do Tijolo, dirigida por Rogério Tarifa e Rodrigo Mercadante.  (Acesso em 8mai 2021).

https://www.youtube.com/watch?v=Fml7N8Twv-0

 

PARA SABER MAIS

ANDRADE, Carlos Drumonnd. Esquecer para lembrar: Boitempo III. Rio de Janeiro: Sabiá, 1979.

BUCK-MORSS, Susan. O presente do passado. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2018.

FREIRE, Ana Maria Araújo (org.). Pedagogia dos sonhos possíveis. Rio de Janeiro: Paz & Terra,2014.

RAMOS, Francisco Régis.  Em nome do objeto. Museu, memória e ensino de História. Fortaleza: Imprensa Universitária UFC,2020. 

 

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