O patrimônio sonoro das nossas paisagens e imaginários – uma tônica de agradecimento ao Murray Schafer (1933-2021)

por Gilberto Vieira

Uma vida dedicada aos sons, nunca poderá deixar de ressoar, pois, o som é movimento. Uma máxima que se consagra ainda mais quando, de alguma maneira, nos tocamos pela ressonância, a coerência e a beleza das atitudes, ideias e obras do músico, compositor, educador musical, ambientalista e escritor Murray Schafer.

Partitura da música “Sun”, composição para coro, 1977, Murray Schafer (1933-2021). Confira: https://www.youtube.com/watch?v=VIBfdBe369I

Muitas pessoas talvez não tenham consciência da importância desse Mestre. Ele é um dos maiores expoentes na defesa da necessidade de cultivarmos um “ouvido pensante”, de compreendermos que é uma falácia controlar o temperamento da diversidade cultural e sonoro-musical do mundo pelo mesmo diapasão e, especialmente, na militância por uma ecologia dos sons – nos provocando a perceber a si próprios como coautores, regentes e intérpretes responsáveis pelas “paisagens sonoras” que nos integram – e, podemos dizer: que integram nossos patrimônios. Foi então com a cadência dos seus movimentos que passamos a nos perguntar de que maneira os sons que nos acompanham e nos atravessam fazem parte dos processos de composição das identidades e das nossas visões de mundo, ou melhor, das nossas “escutas do mundo”.

É imprescindível acentuar que Schafer trata não somente de música, mas, sobretudo, de algo muito mais amplo e, a princípio, difuso: a dimensão sonora. Foi ele quem nos alertou que os sons das máquinas não migram com o mudar das estações e que as cidades e seus motores contínuos, cada vez mais, rocam. Por estarmos suscetíveis as suas frequências e efeitos, sendo conscientes disso ou não, o Mestre chama a atenção para importância de se cuidar amplamente da escuta – desde a sua condição como faculdade básica da nossa natureza sensorial, ligada, inclusive, à saúde, até as suas funções como elemento da cultura, das sensibilidades, dos jogos de identidade e de existência.

Sua militância maior foi então a luta por uma “afinação” pluriversal do mundo. Assim, se a escuta é uma arte, que atuemos como artistas em um mundo pulsante em diversidade, em polifonias e polirritmias, em composições mútuas, em um mundo onde se cultive o diálogo, a pluralidade, a coautoria e a interexistência.

Viva Schafer !!!

Para saber mais

SCHAFER, M. O Ouvido Pensante. Trad. Marisa Trench de O. Fonterrada, Magda Gomes da Silva, Maria Lucia Pascoal. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

SCHAFER, M. A afinação do mundo. Marisa Fonterrada. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

SCHAFER, M. Educação Sonora. Trad. Marisa Fonterrada. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2009.

Músicas:

Snowforms – https://www.youtube.com/watch?v=GiOhtgR1T0k

Sun – https://www.youtube.com/watch?v=VIBfdBe369I