Sobre recomeços, narrativas de dor e esperança

por Carina Martins

Este ano nossa equipe do blog decidiu começar no ano carioca, ou seja, depois do carnaval. Dois anos de pandemia e o mundo virtual parece sugar as energias e despejá-las num fluxo que não acessamos. Somos produtores e produtos das redes sociais e isso nos faz refletir sobre nossos objetivos para não perdermos o trilho.

A tragédia, ou crime ambiental, ou omissão do Estado, chamem do que acharem mais pertinente, nos colocou, uma vez mais, em paralisia. A dor no atacado é difícil de digerir e foi necessário limpar os olhos da lama e sacudir a alma para seguir. Parte de nossa equipe reside em Petrópolis e os relatos de moradores/as são assustadores e impactam dimensões da vida que a imprensa não consegue abarcar.

Conheci um blog maravilhoso nesse período, chamado “Petrópolis sob as lentes”, da jornalista Carolina Freitas. A matéria dela sobre as sucessivas inundações na cidade merece ser lida com atenção: https://petropolisoblentes.com.br/as-enchentes-em-petropolis-pelas-lentes-de-uma-historiadora-e-uma-engenheira-sanitarista/.

E como o patrimônio e a arquitetura podem ajudar a lidar com a dor coletiva? Em primeiro lugar, é necessário pensar a importância de narrar o trauma, que envolve um compromisso entre o trabalho de memória que articula as dimensões individuais e sociais. O pesquisador Marcio Seligmann aponta a necessidade absoluta de dizer e narrar, como condição mesmo de sobrevivência. O grande desafio é construir a ponte com as outras pessoas, ou seja, as falas precisam de escuta, que permitem um religamento ao mundo, um renascimento. E como é difícil escutar a dor do outro, atravessar de mãos dadas e construir empatia de forma genuína, sem ativar em nós tentativas de controle e salvação (pausa rápida: para que tantas selfies nos cenários de dor, para que tantos registros fotográficos de doações e comprovantes de transferência?).

Seguindo a pista de Seligmann, que compreende a narrativa do trauma como uma picareta, é preciso entender que o trauma é uma memória que muitas vezes não passa. E há uma ativação importante que é a luta pela não repetição, para que não aconteça. Tudo isso ocorre em meio a uma pressão para o esquecimento, sobretudo dos algozes.

Há muitas iniciativas importantes nesse campo. Hoje quero selecionar o Memorial de Brumadinho, projeto do escritório de Gustavo Penna, que disponibiliza um vídeo. No início, já aponta a compreensão da importância do testemunho, “a voz, a única voz, é a das testemunhas. A narrativa pertence a quem não pode mais falar e àqueles que ficaram no pesar. Não há consolo que possa ser materializado nessas circunstâncias”.

O rompimento da barragem em Brumadinho ocorreu em 25 de janeiro de 2019, um dos maiores desastres ambientais causados pela mineração. Controlada pela Vale S. A, causou a morte de 270 pessoas que foram dragadas pela lama e pelos rejeitos.

Lembro de uma reunião no Museu da Maré, logo após o ocorrido, onde uma pesquisadora chorava copiosamente, pois ela tinha sido responsável pelo mapeamento das casas e dos/as moradores/as em risco para a Vale. Ela lembrava das inúmeras idas a campo, das entrevistas, das palavras escolhidas com precisão para seu relatório. Era necessário implementar medidas de segurança urgentes. A empresa não escutou. E naquele momento, seu estudo, que foi feito para a vida, transformou-se em instrumento de identificação dos mortos.

O projeto arquitetônico do memorial dialoga com algumas dimensões importantes da narrativa do trauma. Personalizar a dor, que é intransferível. Construir silêncios por meio de grandes vãos. Arte abstrata para evocar as lágrimas, o pranto, o descompasso, a ruptura. Nomes impressos nas paredes. Natureza para apontar para o renascimento, para o tempo cíclico, para a impermanência. Palavras, poucas escritas, muitas faladas. Por fim, a captura de um novo horizonte, que tanto alça para a visualização do impacto da tragédia no território, como também amplia a possibilidade de porvir.

Perspectiva das fachadas. Entrada do Memorial Brumadinho. Fonte: http://www.gustavopenna.com.br/memorialbrumadinho
Perspectiva do ambiente interno imersivo “Espaço de Memórias”, que conta com projeções mapeadas, através de vídeos, imagens e cartas, gerando uma experiência de impacto. Fonte: http://www.gustavopenna.com.br/memorialbrumadinho
Perspectiva do Monumento. Nas paredes laterais, estão inscritos os nomes de cada uma das pessoas que se foram. Fonte: http://www.gustavopenna.com.br/memorialbrumadinho

2019 foi um ano com mau agouro e, de lá para cá, as sensações de arruinamento, de lama, de desmonte continuam a inundar nossa vivência cotidiana. 2022 é um ano de travessia e canalização de energia vital para as transformações necessárias. Tal como o projeto do Memorial de Brumadinho, sabemos que as frestas, os ciclos, os renascimentos estão à espreita, sendo construídos em cada ato de esperança, de amor, de consciência. A vida é imperativa, uma força benigna que nos convidará a lembrar das sombras, diante um horizonte aberto. Eu termino com as palavras de bell hooks, outro jatobá que perdemos recentemente: “quando o desespero prevalece, não conseguimos construir comunidades vitais de resistência (…). Nossa visão do amanhã é mais vigorosa quando emerge das circunstâncias concretas de mudanças que vivemos no agora” (2021:48)

Sigamos. Há muito o que fazer.

PARA SABER MAIS :

Gustavo Penna, nascido em Belo Horizonte em 1950, é arquiteto e urbanista formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além disso, é fundador do escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados e está prestes a completar 50 anos de carreira. Penna é adepto a uma arquitetura moderna e também contemporânea e, tem por objetivo, solucionar questões não apenas no âmbito individual, mas também no coletivo. Com isso, conquistou prêmios nacionais e internacionais, sendo hoje uma grande referência na arquitetura comercial, cultural, institucional, residencial e urbana.

hooks, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. São Paulo: Elefante, 2021.

SELIGMANN, Márcio. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. PSIC. CLIN., RIO DE JANEIRO, VOL.20, N.1, P.65 – 82, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pc/a/5SBM8yKJG5TxK56Zv7FgDXS/?lang=pt&format=pdf

Aline Cruz; Arquicast Entrevista: Gustavo Penna (GPA&A); 01 de Novembro de 2019; Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/927410/arquicast-entrevista-gustavo-penna-gpa-and-a?ad_source=search&ad_medium=projects_tab&ad_source=search&ad_medium=search_result_all&gt; Acesso em: 04 Março, 2022.