Oreretama: representação indígena nos materiais pedagógicos museais

por Michelle Cruz

Em abril, se celebra o mês da Consciência Indígena no país, período em que diversas instituições e movimentos sociais promovem eventos e debates acerca de diferentes esferas da cultura indígena e sua representação. No mesmo mês, há 36 anos, o Museu Histórico Nacional (MHN) reconheceu os povos indígenas como agentes sociais pela primeira vez, com a criação do circuito de exposição temporária Os donos da terra: o índio artista-artesão, após 64 anos de existência do museu, comemorando o Dia do Índio (MANHÃES, 2012)Dessa forma, é primordial discutirmos o papel que os museus nacionais exercem na divulgação para a sociedade, de suas memórias e seus discursos sobre os povos originários ao longo dos séculos.

Durante as pesquisas e análises dos materiais pedagógicos dos museus nacionais desenvolvidos pela pesquisa “Lições das Coisas”, um material se destacou na coleção do MHN, o caderno educativo “Oreretama”, de 2008, relativo à exposição permanente de mesmo nome, inaugurada em 2006, por ser um material voltado inteiramente para a temática indígena, não apenas em um viés mitológico, ao abordar diferentes campos da cultura indígena, além de apresentar objetos da exposição, desenhos rupestres encontrados em sítios arqueológicos, sambaquis, dentre outros.

O “Oreretama” pertence a uma coleção de materiais pedagógicos desenvolvida pelo setor educativo do Museu Histórico Nacional, com o intuito de divulgar o seu acervo e a história do Brasil. Por pertencer a uma coleção, o caderno possui um design e organização padrão, com algumas alterações, como as ilustrações de fundo, o personagem que acompanha a leitura e a capa.

A leitura se inicia com uma breve apresentação do material, da instituição, de sua organização e da planta da exposição “Oreretama”, seguindo com a linha temporal desde a pré-história sobre as movimentações territoriais e o desenvolvimento das interações entre os povos indígenas até a catequização, afirmando, em seguida, a pluralidade cultural e linguística dos povos, junto com ilustrações, exemplos e questionamentos, com uma narrativa expositiva informal, a fim de aumentar a proximidade e interação com leitor. Em seguida, o material traz diversas atividades diretamente relacionadas à exposição, com identificação de objetos, e outras genéricas repetidas nos demais cadernos, de pesquisa, memória e observação, que buscam abordar temas variados como a culinária, rituais, organização das funcionalidades na aldeia, porém são realizadas de forma rasa.

No tópico “Mão na Massa”, o livreto apresenta os hábitos alimentares indígenas, de forma mais diversa, trazendo informações sobre os alimentos comumente consumidos, sua forma de produção e os utensílios usados, além de apresentar curiosidades e imagens das ferramentas citadas. Nos tópicos seguintes, a arquitetura indígena ganha destaque no Oreretama, assim como as personalidades que contribuem para preservar e propagar a cultura indígena, com informações suficientes e pertinentes para o público alvo, acompanhadas de curiosidades e atividades que estimulam a pesquisa por parte dos leitores.

Encerrando o material, a mitologia dos indígenas é retratada não apenas como parte do folclore nacional, mas sim como uma parte importante das crenças, para a manutenção dos costumes para as futuras gerações e no entendimento da astrologia, primordial para a colheita e atividades de subsistência dos povos.

Ademais, os sambaquis são retomados no discurso da importância da preservação dos sítios arqueológicos e para a construção da história nacional, assim como a resistência indígena para preservar seus costumes e territórios.

O caderno “Oreretama” possui um design atrativo para o público alvo que conversa com o tema, com ilustrações que enriquecem o entendimento do assunto retratado, porém em alguns casos, o filtro esverdeado aplicado no material prejudica a leitura de algumas legendas (imagem 01) e dificulta a visualização de algumas imagens dos objetos da exposição nas atividades , além disso, as imagens estão sem escala (imagem 02). Outro ponto é o mapa da exposição, que é ilustrado isoladamente, com a indicação da orientação confusa e aparentemente desatualizada, se comparada com o mapa fornecido pelo site do museu.

IMAGEM 1- CAPA DO CADERNO PEDAGÓGICO ORERETAMA. FONTE: BLOG CAMINHOS DA CIÊNCIA http://caminhosciencia.blogspot.com/2013/11/exposicao-oreretama.html
IMAGEM 2: LEGENDA DA ILUSTRAÇÃO, PÁGINA 9. FONTE: BLOG CAMINHOS DA CIÊNCIA http://caminhosciencia.blogspot.com/2013/11/exposicao-oreretama.html

O conteúdo de alguns assuntos é rico, bem explicado, com descrição de técnicas e materiais usados pelos povos na execução de construções, instrumentos e na culinária indígena, além de estar acompanhado de ferramentas, além do texto, que auxiliam na visualização do tema e instigam o leitor a pesquisar para se aprofundar no assunto. Por exemplo, os tópicos “Mão na Massa” e “Passeando pela Exposição”, porém, outras como as atividades do tópico “Jogos”, parecem estar presentes apenas para criar uma linguagem comum com os outros cadernos da coleção, pois pouco agregam para o aprendizado do tema.

As ilustrações e imagens do material são bem colocadas e estão em equilíbrio com o texto, no entanto, a representação dos indígenas nas ilustrações ocorre de forma estereotipadas, por apresentarem pouca variação nas vestimentas e ornamentos (imagem 03, 04 e 05), algo contraditório com a narrativa do texto, que busca afirmar a pluralidade dos costumes, da arquitetura, da  língua, das crenças e das artes dos povos originários. É possível observar a construção de uma imagem de “índio genérico”, masculino, juvenil, com os artefatos de pena, tanga e cocar, já tão criticada pelos movimentos sociais e historiografia brasileira. Ademais, analisando as referências e a equipe da produção, não foi encontrada nenhuma menção de participação indígena na produção do material, apenas uma citação do indígena Tururin, da aldeia Xavante, no tópico Personalidades.

Ao fim do caderno, há diversas fontes, sites e nomes de instituições que atuam na resistência dos povos originários, porém alguns desses não estão mais ativos, devido a desatualização do material, e outros não possuem publicações e atualizações recentes.

IMAGEM 3: ILUSTRAÇÃO DE RAPAZ INDÍGENA, PÁGINA 16 FONTE: BLOG CAMINHOS DA CIÊNCIA http://caminhosciencia.blogspot.com/2013/11/exposicao-oreretama.html
IMAGEM 4: ILUSTRAÇÃO DE RAPAZ INDÍGENA, PERSONAGEM QUE ACOMPANHA A LEITURA DO CADERNO, PÁGINA 28 FONTE: BLOG CAMINHOS DA CIÊNCIA http://caminhosciencia.blogspot.com/2013/11/exposicao-oreretama.html
IMAGEM 5: ILUSTRAÇÃO DE RAPAZES INDÍGENAS REALIZANDO PRÁTICAS CULTURAIS, PÁGINA 15. FONTE: BLOG CAMINHOS DA CIÊNCIA http://caminhosciencia.blogspot.com/2013/11/exposicao-oreretama.html

Grande parte do acervo indígena do MHN foi doado pelo indigenista Luiz Filipe de Figueiredo Cipré em 1985, e foi só 2006, vinte anos após a doações oitenta e quatro anos de existência do museu, que a representação indígena foi inserida no processo histórico brasileiro, com a criação da exposição permanente Oreretama. A exposição temporária Os donos da terra: o índio artista-artesão e a abertura da exposição Oreretama (imagem 06) representa um esforço  do museu na forma de representar e divulgar os povos originários e seu papel fundamental na história do país, antes retratado apenas como um papel de subjugado e o “bom selvagem” da colonização brasileira.  É necessário, no entanto, uma maior investida para a  inclusão dos povos originários na produção e atualização desses materiais, a fim de abranger mais esferas da cultura indígena, combater estereótipos e debater com a sociedade a representação desses povos na história e construção de uma nação, não apenas durante um mês específico do ano. 

A imensa riqueza e pluralidade dos povos originários em diversos âmbitos, bem como a produção intelectual e política dos mesmos, ainda é ignorada em nome de um personagem genérico, desenraizado e atemporal. É preciso, igualmente, enfrentar os grandes desafios atuais de invasão de terras indígenas, garimpos, precarização da política do Estado e constante racismo nos discursos e práticas institucionais.  Se o futuro é ancestral, o presente precisa reconstruir insistente e profundamente as representações dos povos originários na educação.  

IMAGEM 6: FOTOGRAFIA DA EXPOSIÇÃO ORERETAMA. FONTE: SITE VISIT.RIO https://visit.rio/evento/oreretama/

REFERÊNCIAS 

MUSEU HISTÓRICO NACIONAL. ORERETAMA. Rio de Janeiro, 2008. 28 p

MANHÃES DE OLIVEIRA, Mayara. Representação da cultura indígena no Museu Histórico Nacional na década de 1980. Rio de Janeiro: Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-RIO, 2012. 10 p.

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