Arruando por uma São Paulo negra

por Aline Montenegro Magalhães

São Paulo negra é o nome dado a uma caminhada realizada quinzenalmente na cidade. Idealizada e conduzida pelo jornalista Guilherme Soares Dias, do perfil @guianegro, nos propõe a andar pelas ruas e praças com olhos de ver, atentos a vestígios e fragmentos de uma história afrodiaspórica que geralmente é invisibilizada, eclipsada por narrativas que enaltecem a imigração italiana e japonesa.

É o caso, por exemplo, da Liberdade, por onde o nosso passeio começou, no dia 31 de julho. O bairro é famoso por sua referência à imigração nipônica, mas, graças a pesquisas recentes, a pressões do movimento negro e a iniciativas como a do Guilherme, têm sido reconhecido também terreiro ancestral da negritude paulistana, que remete aos séculos XVIII e XIX, quando a região era periférica em relação ao centro e moradia de negros livres e libertos, além de abrigar o pelourinho, lugar de punição aos escravizados…

Acervo pessoal, 2022.

Onde hoje é a Praça da Liberdade, era o Largo da Forca, lugar para onde eram levados os condenados à pena de morte. Foi ali que, em 20 de setembro de 1821, o soldado negro. Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, seria enforcado por ter cometido o “crime” de liderar uma revolta em Santos, motivada pelo atraso de salários. Entretanto, a corda que teria tirado sua vida arrebentou nas três tentativas de enforcamento. A reação do público que assistia à cena, tomado de espanto e compaixão diante do que parecia ser uma sucessão de milagres, foi pedir a absolvição de Chaguinhas, gritando “Liberdade! Liberdade”. O pedido ficou imortalizado como o nome do lugar, mas Chaguinhas acabou sendo morto a pauladas.

Na Praça da Liberdade, com exceção da Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, construída, em 1853 a partir do hábito de se ascender velas para os condenados, nenhum vestígio dessa época ou dessa história, que nos foi contada diante da capela de Nossa Senhora dos Aflitos, situada ao fim de uma rua pequena e sem saída, ali perto. A capela, que pertencia ao Cemitério dos Aflitos, lugar de enterramento de pobres, escravizados, indígenas e enforcados, tornou-se lugar de culto ao Chaguinhas, afinal, seu corpo sem vida teria sido levado para lá, antes de ser enterrado. Devotas e devotos costumam anotar seu pedido no papel e fixar numa porta de madeira. Para fortalecer o pedido, bate três vezes nessa porta. As três vezes que a corda arrebentou.

Ao longo da caminhada, fomos conhecendo lugares, histórias e os esforços para valorização e visibilização das referências afrodiaspóricas na cidade. A luta pela preservação do sítio arqueológico onde era o cemitério dos aflitos, é um exemplo. Outro, é a instalação de estátuas de personalidades negras, como a de Deolinda Madre (1909-1995), conhecida como Madrinha Eunice, na Praça da Liberdade, em abril deste ano. Madrinha Eunice foi fundadora de uma das primeiras escolas de samba de São Paulo, a Lavapés, em 1937, e a primeira mulher a dirigir uma escola de samba no Brasil. Reconhecida como uma liderança comunitária, teve mais de 40 afilhados.

 

Por não estar em um pedestal, mas literalmente, com os pés no chão, é possível que não seja percebida por quem caminha por ali, entre as barracas de quitutes e artesanatos das feirinhas do final de semana. Mas sua presença, com seu turbante, suas guias e saia rodada, contribui para a construção da memória negra ali e é sintomática do desejo e da urgência de se empretecer a cidade.

Para saber mais:

https://revistatrip.uol.com.br/trip/historia-dos-negros-no-bairro-liberdade-e-o-movimento-de-preservacao-sitio-arqueologico-dos-aflitos

Liberdade foi o primeiro bairro negro de São Paulo; ouça

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/04/02/estatua-da-sambista-negra-madrinha-eunice-e-inaugurada-na-liberdade.ghtml