“Para nunca esquecer”… Emanoel Araújo

Por Aline Montenegro Magalhães

Foi com muita tristeza que li a notícia sobre a partida de Emanoel Araujo para a outra dimensão, na última quarta-feira. Artista plástico de muitos talentos e obras memoráveis nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, formou-se na Escola de Belas Artes de Salvador e ganhou o mundo, numa atuação cultural intensa, que abriu portas, janelas e caminhos para a arte afro-brasileira.

São Paulo foi onde se fixou, trabalhando como artista e gestor cultural. O Museu Afrobrasil, no Parque do Ibirapuera, inaugurado em 2004, foi sua maior realização e legado como curador e colecionador de arte afrodiaspórica, tema no qual é uma assumidade, com livros publicados e várias exposições realizadas.

“Para nunca esquecer: negras memórias, memórias de negros” é o título de uma exposição de Emanoel Araujo, muito bem lembrada em matéria de Hélio Menezes, publicada quinta-feira, na Folha de São Paulo. Quando essa mostra esteve no Museu Histórico Nacional, inaugurada com batuques e acarajés no dia 20 de novembro de 2001 e ficando em cartaz até março de 2002, trabalhei como educadora, ao lado de colegas queridos, como Rogério José de Souza e Reginaldo Tobias de Oliveira, do Museu Nacional de Belas Artes.

Quanto aprendizado! Acho que minha vida nunca mais foi a mesma e, desde então, me interessei pelos estudos sobre a Diáspora Africana no Museu Histórico Nacional. A exposição mostrava em imagens e objetos as feridas abertas da escravidão e do racismo, que mesmo após a Abolição, ainda derramam sangue em nosso solo. Eram as negras memórias. Por outro lado, valorizava individualidades negras na cultura nacional como Machado de Assis, Paula Brito, Mercedes Batista, Maestro Francisco Braga, Mestre Valentim, entre tantos outros e outras que foram “embranquecidos” nos Anais da nossa história. Eram as memórias de negros.

Desde então, o MHN recebeu outras exposições temporárias produzidas por Emanoel Araújo, Entre as quais, “Emanoel Araújo: autobiografia do gesto e cosmogonia dos símbolos” (2010), em comemoração aos seus 50 anos de carreira, “Hereros – Angola”, do fotógrafo Sérgio Guerra (2012) e “Espírito da África: os reis africanos” (2015).

Para além das mostras temporárias, Emanoel Araujo contribuiu para o empretecimento da história contada nas exposições do Museu Histórico Nacional. Além de ter sido consultor na curadoria do circuito de longa duração, produzido entre 2006 e 2010 (ainda vigente, com algumas modificações) é o autor de um dos objetos mais belos e simbólicos dessa mostra: o “Altar de Oxalá”. Trata-se de uma instalação artística que reproduz o espaço sagrado de culto ao Orixá nos terreiros de candomblé. Foi produzida segundo o princípio curatorial de uso da linguagem estética para fortalecer temáticas na exposição, nesse caso, a religiosidade de matriz africana.

Detalhe da obra “Altar de Oxalá” de Emanoel Araújo, 2010. Foto de divulgação Museu Histórico Nacional.
Detalhe da obra “Altar de Oxalá” de Emanoel Araújo, 2010. Foto de divulgação Museu Histórico Nacional.

Conforme escrevemos (Eu, Érika Azevedo, Fernanda Castro e Stephanie Santana), ao relatar experiências de ações educativas no circuito de exposição, o Altar de Oxalá é um “ponto de ótimos debates que costumam contrapor a beleza da instalação artística de Emanuel Araujo com a reação negativa dos visitantes, que se aproximam por encantamento estético e se afastam ao ler o nome do Orixá na legenda. A partir da análise do ‘Altar de Oxalá’ pontuamos a perseguição às religiões de matriz africana como racismo religioso, termo ainda pouco conhecido pela maioria do público.”

Ação educativa em frente ao “Altar de Oxalá”. Foto de divulgação Museu Histórico Nacional.

Obrigada, Emanoel Araujo, por empretecer arte, museus e coleções! Que Oxalá te receba no Orum e que Ogum te abençoe. Axé!

Foto tirada no Museu Afrobrasil em janeiro de 2020. Arquivo pessoal.
Conversa sobre esculturas afro-brasileiras em frente aos ex-votos. Museu Afrobrasil, janeiro de 2020. Arquivo pessoal.

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