“Quem foi que inventou o Brasil?”

por Aline Montenegro Magalhães

Assim Lamartine Babo perguntava em 1934, e também respondia: “Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! […] Depois Ceci amou Peri; Peri beijou Ceci […] Depois Ceci virou Iaiá, Peri virou Ioiô […]”. E a gente até hoje canta e dança essa “História do Brasil” composta por ele para o carnaval daquele ano. Na marchinha, Pedro Álvares Cabral é seguido pelas “contribuições de indígenas e negros” nessa invenção, numa representação “amorosa” do mito fundador das “três raças” (europeia, originária e africana) hierarquicamente apresentadas. Os indígenas “Ceci” e “Peri” que aqui já estavam, na música, se amaram e se beijaram “depois”. Como “depois” os africanos e afrodescendentes “Iaiá” e “Ioiô” seguiram se amando e se beijando até acabar o tempo da vovó e tudo mudar…

A essa pergunta musicada por Babo outras respostas foram produzidas ao longo do tempo: na música, na literatura e também na produção de imagens e construção de passados em museus. O que há em comum nessas produções é a construção de uma história pacífica sobre a nossa formação nacional. Tensões, conflitos, estupros e mortes são eclipsados. Quando não, aparecem como processos naturais ou necessários ao projeto civilizatório colonial português. No caso do Museu do Ipiranga de 1922, por exemplo, há referências aos conflitos, como o quadro “caça ao índio”, mas não uma representação dos mesmos em cenas de pintura histórica. Quadros que foram fartamente encomendados por Affonso E. Taunay, segundo diretor da instituição, para ornamentar o palácio monumental do Ipiranga, para as comemorações do centenário da Independência. Essa escolha apaziguadora foi analisada por Paulo César Garcez Marins e o fez ver o Museu do Ipiranga como um “Museu da paz”, muito diferente das narrativas de conquista divulgadas em livros e compêndios escritos, inclusive, pelo próprio Taunay.

Reinaugurado no programa comemorativo do bicentenário da Independência, o Museu do Ipiranga devolveu ao público uma série de imagens que procuraram dar conta dessa invenção do Brasil, representando cenas de momentos considerados fundadores da nação, encomendadas por Taunay lá em 1922. Seu intento não foi responder a pergunta colocada por Babo, mas compartilhar com os visitantes o olhar sobre as diferentes respostas produzidas em diferentes momentos da história institucional, colocando-o em diálogo com outras produções. São obras que, intensamente analisadas pelas pesquisas desenvolvidas na instituição, são apresentadas sob uma perspectiva crítica. Exposições como “Passados imaginados”, por exemplo, historicizam a criação e a circulação dessas imagens, bem como as diferentes formas de apropriação. Demonstram o quanto a resposta para a pergunta que Lamartine Babo fez pode ser plural, incômoda, desestabilizadora e incompleta, até mesmo, inexistente. Aliás, as exposições estão ali mais para provocar perguntas do que oferecer respostas.

A primeira sala da exposição “Passados imaginados” já indica os caminhos que percorreremos nas salas seguintes, com recursos multimídia e de acessibilidade para que todo mundo possa acessar as mesmas informações. Um vídeo mostra como a chegada dos portugueses à América foi interpretada de diferentes formas em diferentes momentos, explicitando as diversas maneiras de se narrar um acontecimento. Um texto introdutório aponta para o distanciamento temporal entre os acontecimentos representados nas pinturas históricas apresentadas e a produção dessas imagens. A primeira missa no Brasil, por exemplo, narrada na carta de Pero Vaz de Caminha de 1500, teve sua imagem produzida mais de 400 anos depois, por Victor Meirelles. O que isso significa? A que projeto político essa obra procurava atender? A cena responde mais às tentativas de explicação das origens do Brasil em jogo no momento de sua produção do que ao que teria efetivamente ocorrido séculos antes. Uma linha do tempo, nos ajuda a compreender a realização de pinturas históricas e sua vinculação a esforços de construção de identidade nacional. Uma vitrine dessa sala me encantou sobremaneira: a que apresenta como as imagens preservadas no Museu Paulista foram difundidas em livros didáticos desde os primeiros anos do século XX até os dias atuais. Como os livros didáticos fizeram e fazem diferentes usos dessas imagens para ensinar história nas escolas, indo desde o mero papel de ilustração até objeto de reflexão com alunos e professores.

Não pretendo aqui ficar dando “spoiler” da exposição, que ocupa quatro salas e vale muito ser visitada. Mas queria chamar atenção para a forma com que a narrativa expográfica se apropria das obras de pintura histórica de cem anos atrás, encomendadas por Taunay para o “museu da paz” e promove uma “des-coberta da barbárie, desmonumentalizando o descobrimento”. Vou ficar na segunda sala, onde há três quadros de grandes dimensões que representam momentos fundadores da nação: “Fundação de São Paulo” (1907), “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500” (1900) e “Fundação de São Vicente” (1900). Todas de Oscar Pereira da Silva, procuram representar esse primeiro contato entre portugueses e indígenas, dando sentido positivo ao processo colonizador, não mencionando tensões nem conflitos.

Vale atentar para como os recursos multimídia não apenas explicam sobre essa forma de imaginar passados, mas também oferecem instrumentos para que tenhamos olhos de ver para esse tipo de produção. Um deles, por exemplo, disseca a pintura “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500”, problematizando a mensagem pedagógica da obra ao indicar os lugares que portugueses e indígenas ocupam na cena e a forma com que são representados em jogos de luz e sombra que garantem o protagonismo de Cabral no centro da tela e marginalizam os indígenas apresentados assustados, como selvagens, mas também em posição de subserviência.

Obra do Oscar Pereira da Silva “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500”. Acervo Museu do Ipiranga (MPUSP). Foto da autora, 2022.
Maquetes táteis para a leitura da tela de Óscar Pereira da Silva. Museu do Ipiranga (MPUSP). Foto da autora, 2022.

 

Em todas as exposições há um espaço chamado “Contraponto”, para tensionar as narrativas imagéticas apresentadas. Nessa sala há um vídeo “Florestania – territórios de resistência”, com depoimentos de povos originários sobre a violência desse processo colonizador e as lutas que ainda são travadas pelo direito à terra e à vida, como a fala de Casé Angatu, liderança do povo Tupinambá de Olivença, Bahia, sobre as formas de re-existência. São histórias muito diferentes daquelas narradas pelos quadros de Oscar Pereira da Silva.

Fazer uma leitura dos “passados imaginados” a contrapelo, como propõe Walter Benjamin e como a exposição nos possibilita, coloca-nos diante da desnaturalização da história e da nossa responsabilidade de também inventar o Brasil. Que possamos refletir a respeito e nos comprometer com a construção de um país mais justo e democrático, que respeite os direitos e avance em políticas sociais. Que possamos rejeitar patriotismos pautados na noção do bem, em que um grupo continua imaginando o Brasil como território do ‘pintou um clima’. Que nosso país reconheça que ‘Ceci’ e ‘Ioiô’ são protagonistas e podem nos inspirar a reescrever a história e desenhar futuros nos quais a diversidade é um valor, mas a desigualdade não. Dia 30/10 está aí!

P.S.: Obrigada Carina Martins, pela inspiração e parceria. Te amoo!!!!