A cidade sob lentes e o voo das borboletas

por Carina Martins Costa

O projeto “Olhos de Ver” me levou a investigar técnicas, sujeitos e enquadramentos sobre a cidade de Petrópolis, além de conhecer um projeto muito interessante desenvolvido pela jornalista Carolina de Freitas no perfil @petropolisoblentes, hoje nossa parceira.

O nome de ambos os projetos converge para uma percepção oculocêntrica da produção do conhecimento, que tem uma tradição antiga já muito investigada por historiadores/as da ciência e da História. A sociedade ocidental, de fato, privilegiou uma noção da visão como fonte objetiva da realidade, o que contaminou nosso olhar (desculpem a retórica) sobre a fotografia.

Quando comecei a estudar fotografia como fonte histórica e suas especificidades como técnica e linguagem, fiquei um pouco surpresa com algo que parecia óbvio aos autores. O que vemos é, de certa forma, o que podemos ver. Lembro-me aqui dos estudos sobre a recepção de fotos de campo de concentração mostradas aos habitantes das proximidades logo após o final da II Guerra: eles não viam os campos porque não imaginavam sua existência. Viam, claro, chaminés, galpões, homens, armas. Ao mesmo tempo, não viam a experiência atroz que redefiniria os rumos da humanidade.

Um livrinho destinado às crianças é muito instigante para pensarmos as imagens, embora não seja sobre elas. “Que emoção! Que emoção?”, de Didi-Huberman, segue a trilha do trabalho de Walter Benjamin para uma rádio alemã na década de 1930, com o intuito de iluminar os temas sensíveis junto ao público infantil. Ao explorar a emoção com espanto e questionamento, como sugere o próprio título, o intelectual francês percorre fotografias de momentos históricos diferentes, ajudando-nos a pensar igualmente sobre processos de registro de imagem. Recomendo muitíssimo. Ao final do diálogo com as crianças, ele aponta que, para definir uma coisa, é preciso matá-la: “isso é uma borboleta”, aponta o pesquisador com um exemplar sob alfinetes. O autor afirma que prefere “(…) não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber (…). Ao menos eu terei apanhado em pleno voo, sem guardar apenas para mim, um pouco de sua beleza”.

Fiquei pensando nessa imagem do voo da borboleta quando estudei as fotografias produzidas para os guias de Petrópolis. Por um lado, “elas são” ou “querem ser” fiéis, neutras, objetivas. Mortas, eternas, documentos históricos. Enquadramentos capturados no século XIX por fotógrafos experientes, com recursos financeiros para suportar os altos custos de laboratórios itinerantes, materiais importados e todo processo de produção das imagens. (leitores digitais, as imagens não se faziam com um toque na lente do celular, era preciso capturá-las, revelá-las, estabilizá-las e preservá-las). Leio o Guia do Klumb e observo seu entusiasmo com a presença de 31 imagens. (Hoje em dia, qualquer saída de casa rende muito mais registros. Estamos, de certa forma, registrando de forma compulsiva só os voos? Ou, ao contrário, queremos nos colocar sob alfinetes identitários do tipo “eu sou”?)

Como guardar a beleza do conhecer pela fotografia, registro pretensamente do que é? Philippe Dubois chamava essa ilusão mimética da fotografia como “espelho do real”, até chegar a reflexão sobre os traços do real. Afinal, a fotografia é um ato. Há, em primeiro lugar, a impressão luminosa, condicionada a processos físicos e químicos. Além disso, a foto é um momento, uma escolha codificada, cultural, que depende inteiramente de decisões humanas. Ela também funciona como testemunho, aponta para a existência e/ou veracidade em determinada perspectiva. O autor vai concluir, por fim, que qualquer imagem é uma interpretação-transformação do real, uma formação arbitrária, cultural, ideológica e codificada. Não seria então uma tentativa de capturar voos?

E o que isso tem a ver com a cidade sob lentes, no caso, Petrópolis? Voltemos às “Doze Horas de Diligência”. Klumb foi agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Foi ele mesmo professor de fotografia de Isabel e Leopoldina, as filhas de Dom Pedro e Teresa Cristina, também entusiastas da técnica. Lembramos que as experiências fotográficas no Brasil tiveram início por volta de 1840 e o entusiasmo da família imperial garantiu não somente o aprendizado, mas sobretudo o financiamento de fotógrafos como Klumb e Marc Ferrez.

Autorretrato de Revert Henrique Klumb., 186?, Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN
Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=doze-horas-em-diligencia. Acesso 11 mai. 2023.

Quais são as imagens registradas por Klumb? Das 31 publicadas, cerca de um terço são de Petrópolis, 7 são de Juiz de Fora e as demais, de localidades da estrada União e Indústria. O grande destaque temático são as pontes e estações de muda, que correspondem a doze registros. É a tecnologia, o progresso, o avanço dos interesses econômicos rasgando a paisagem que interessa. A natureza é documentada em seguida com dez registros, entre enquadramentos de vales, cascatas, bosques e paisagens. Os prédios com destaque são três, o Palácio Imperial, o Hotel Inglês e a Quinta de Mariano Procópio. Há ainda uma vista da cidade de Juiz de Fora e da Colônia Agrícola D. Pedro II. O único retrato é do comendador Mariano Procópio, responsável pela administração da Estrada e não de Dom Pedro, como seria razoável supor. Apenas uma fotografia traz o cotidiano da viagem com uma vista das tropas.

“Ponte de Sant’Ana”
Disponível em: https://antigo.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/miscelanea/2021/cadbn11_miolo_final_24-10_1-compactado_compressed_1_1-7673.pdf

Aqui chegamos a um dado muito interessante, discutido por Pedro Vasquez em seu comentário instigante sobre o guia. Ele explica detalhadamente a dificuldade da época em fazer uma fotografia externa, que exigia um laboratório de campanha pelo uso de colódio úmido. Para o autor, especialista na história da fotografia, Klumb foi um dos melhores fotógrafos do seu tempo e dedicou uma década a esses registros. As vistas originais estão depositadas na Biblioteca Nacional , Museu Histórico Nacional e Museu Mariano Procópio, posteriormente organizadas em seu livro “Álbum da Estrada União e Indústria”.

Ao ver as imagens, achamos, com nossos olhos de ver atuais, tratar de fotografias. Mas não são, e sim litografias! Essas imagens eram acrescidas de desenhos de seres humanos, animais e veículos. Estranho pensar nisso, mas a fotografia exigia àquela época um longo tempo de exposição e estes elementos móveis virariam apenas um borrão. E mais estranho ainda, Klumb que fez o pedido para a inserção com o propósito de torná-las, vejam só, mais reais!!!

Sigamos a descrição de Pedro Vasquez sobre algumas inserções: “Klumb ambicionava oferecer uma documentação favorável sobre a estrada que ele vira nascer, de modo que recheou suas imagens de gente, veículos e animais, para conferir mais vida e movimento (…). Assim, na vista do Vale da Samambaia, foi acrescentada uma tropa de burros composta por oito animais, alguns dos quais representados de forma um tanto precária. O mesmo acontece na imagem intitulada “Tropa em marcha”, na qual foram adicionados o condutor e seis bestas. Da mesma forma, os dois cavaleiros vistos na Passagem de Taquaril também não existem na vista fotográfica original, que mostra a estrada inteiramente deserta (…)”.

“Samambaia- Vale”. Disponível em:  https://antigo.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/miscelanea/2021/cadbn11_miolo_final_24-10_1-compactado_compressed_1_1-7673.pdf

Reparem, na imagem, a desproporção entre os burros e humanos. As feições também são esquisitas. O famoso ruço parece presente no vale, aparentemente natural, a exceção da própria estrada. Você também ficou impressionado com essa informação de inserção?

Que emoção descobrir estratégias de produzir emoção naquele que é considerado o primeiro guia fotográfico do Brasil. A proposta de inserir movimento, afinal, não seria uma tentativa de capturar o voo das borboletas de um tempo de vertiginosas mudanças?

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Divulgação do projeto de pós-doutorado “Olhos de Ver”, desenvolvido no PROARQ/UFRJ sob supervisão da Profa. Dra. Ceça Guimaraens, financiado pelo CNPQ.

 

PARA SABER MAIS:

O projeto “Olhos de ver: a produção de materiais inclusivos sobre arquitetura, história e patrimônio em Petrópolis (RJ)” é coordenado por mim na UERJ, financiado pela FAPERJ e envolve uma equipe muito extensa e querida de professores e alunos, a quem agradeço.

O livro “Que emoção! Que emoção?” é fruto da transcrição de uma conferência de Georges Didi-Huberman para crianças em Mountreiul, em 2013. Foi publicado no Brasil pela Editora 34 três anos depois.

Para pensar teoria da fotografia, recomendo para início de conversa a Susan Sontag e o Philippe Dubois. Qualquer texto ou livro.

Para conhecer as técnicas fotográficas, ver https://ims.com.br/por-dentro-acervos/glossario-de-tecnicas-e-processos-graficos-e-fotograficos-do-seculo-xix/.

O texto “A insuspeita grandeza de um livro de bolso”, de Pedro Afonso Vasquez, detalha a história da fotografia e a originalidade da produção de Klumb. Vasquez também organizou o “Álbum da Estrada União e Indústria”, em 1997, com todas as vistas originais de Klumb. Disponível em: https://antigo.bn.gov.br/sites/default/files/documentos/miscelanea/2021/cadbn11_miolo_final_24-10_1-compactado_compressed_1_1-7673.pdf. Acesso em 10 abr 2023.