Tag: memórias em disputa monumentos em litígio

Um cemitério de estátuas indesejadas

Nas palavras do arquiteto que o projetou, compreendemos o caráter pedagógico do lugar. “Este parque não é a crítica das estátuas, ou dos escultores, mas sim, a crítica da ideologia que usa as estátuas como símbolos de poder”. Nesse sentido, a proposta é que os monumentos sejam estudados como documentos da história nacional e também da história da arte, o que seria inviabilizado, caso a ideia inicial de total destruição fosse levada adiante, o que Eleõd comparou a uma “queima de livros”. Outro aspecto sublinhado é que não se trata sobre o comunismo, mas sim, sobre a queda do comunismo, o que é feito com a liberdade impensável no passado ali representado.

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Estátuas em transe: iconoclasmo e assimetrias na produção da história

As cenas da estatua derrubada em Bristol percorreram o mundo, talvez com intensidade semelhante a do assassinato brutal de George Floyd. Edward Colston já não respirava, George Floyd já não respira. Um suspirou para a eternidade, em 1721, revivendo no bronze em 1895, quando a lembrança de seus atos como mercador de escravos não suplantavam a imagem de filantropo. O outro foi sufocado em 2020, quando as imagens da violência racial não cessam de se repetir, provando a força persistente de uma história que não passa apesar de todos os movimentos anti-racistas de ontem e de hoje. Na controvérsia aberta sobre a iconoclastia em curso, houve quem desqualificasse os atos contra os monumentos como gestos violentos. Sejamos honestos, uma estátua não é violentada - esse não é um qualificativo que se aplique ao bronze como se fosse carne.

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Por uma ciranda sem degolas e esquartejamentos

Percebo o valor e a importância das lutas simbólicas mas creio que todos desejamos mais. Nosso combate pode e deve ser travado no dia a dia, contra práticas genocidas, racistas, misóginas, homofóbicas e fascistas. Que o nosso arsenal simbólico cresça: dezenas, centenas, milhares de monumentos para instituirmos as memórias de negros, mulheres, indígenas, trabalhadores e perseguidos políticos, vítimas de tantas e tantas formas de violência. 

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Monumentos e insurreição popular: põe no museu ou deixa quebrar?

Lembrando de Lunatcharsky e da política pública soviética para monumentos e o patrimônio artístico, histórico e a própria memória, penso que o abismo que separa as diversas opiniões - sempre muito bem fundamentadas - daqueles que bradam pela prisão dos “vândalos”, ou que gritam “deixa quebrar” é, no final das contas, a grande ausência de políticas públicas de patrimônio, artes e memória voltadas para a reparação histórica, para a escuta de segmentos sociais historicamente oprimidos e explorados.

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