Tempos de Marielle no Museu da Maré

Por Aline Montenegro Magalhães e Carina Martins Costa

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” Audre Lorde

Com essas palavras, da escritora caribenha-americana, feminista, lésbica e ativista dos direitos civis, Marielle Franco encerrou o que o artista Marcondes Rocco denominou como seu “Último ato”, no evento Jovens Negras Movendo as Estruturas, realizado na Casa das Pretas, no dia 14 de março de 2018. Hoje, contamos 1 ano e 5 meses de seu brutal assassinato e do motorista Anderson Gomes. São 518 dias sem Marielle, sem Anderson e sem respostas sobre quem mandou matá-la…

As balas que atingiram Marielle puseram fim à sua vida. Mas não mataram seus pensamentos, que pulsam em milhares de mentes. Não interromperam sua luta, à qual várias pessoas dão continuidade – tanto nos cargos eletivos, como as deputadas Talíria Petrone, Renata Souza e Mônica Francisco, eleitas no último pleito,  quanto em diferentes atuações institucionais e em movimentos sociais. Também não calaram a sua voz, que ecoa nos quatro cantos do mundo, em diferentes manifestações e processos de construção de memória. 

A exposição “Tempos de Marielle” é um exemplo. Inaugurada no dia 14 de março de 2019, quando o assassinato completou um ano, encontra-se na galeria de exposições temporárias do Museu até dia 31 de agosto. É onde os tempos de sua vida breve, porém intensa, são apresentados em diálogo com os tempos que marcam a história da favela onde nasceu e foi criada. Importante lembrar que Marielle estudou no Pré-vestibular do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), onde posteriormente trabalhou e iniciou sua militância, fazendo parte, portanto, da teia que construiu o próprio Museu e conecta iniciativas de memória, educação e direitos da favela. 

É a porta de seu gabinete na Câmara dos Vereadores que abre a exposição aos visitantes. A porta por onde passou com os 46.501 cidadãos e cidadãs que a elegeram como representante para a legislatura municipal, em 2016. A porta que se fechou no fatídico dia 14 de março, para não mais ser aberta por ela. Uma porta simples, de material frágil, mas carregada de simbolismo, pois ali estão colados adesivos das campanhas e lutas lideradas pela vereadora, como o aumento da presença feminina na política e o fim da violência policial nas favelas. Segundo o próprio texto da exposição, “A porta é memória, é denúncia, é apelo ao não esquecimento! Sua potência simbólica ultrapassa sua frágil materialidade e nos convida à permanente e inquietante busca por justiça”.  Aqui, a porta também nos convida a entrar pela história de Marielle. 

Porta retirada do gabinete de Marielle Franco na Câmera de Vereadores do Rio de Janeiro.

 

Atravessando-a, observamos um conjunto de dez pinturas, da autoria de Marcondes Rocco, que representa a trajetória multifacetada de Marielle. São os diferentes tempos da sua vida e papéis, que os dedos e os pincéis do artista autodidata, negro e também favelado coloriu, inspirado em fotografias: criança, mulher, estudante, favelada, pesquisadora, mãe, filha, esposa, liderança negra, vereadora e ativista pelos direitos humanos. Vemos também a homenagem com seu nome como rua, na cidade de Colônia, na Alemanha. 

Os Tempos de Marielle, contudo, não estão apenas na impactante exposição temporária. Na memória do botequim que foi de seu avô, na placa do beco, no estandarte das manifestações, Marielle é memória que inspira ação.  

“O grito” de Marcondes Rocco.

A exposição contou com pesquisa, seleção das imagens, elaboração de textos e projeto expográfico realizados por uma curadoria compartilhada entre a equipe do Museu da Maré, o artista plástico Rocco, amigos e familiares da Marielle. Atendeu, assim, o desejo de seu pai, Antônio Francisco, de que Marielle fosse conhecida como filha, ou seja, para além de sua atuação pública.

Enfim, “Tempos de Marielle” nos convida a refletir sobre os tempos difíceis que vivemos, nos convoca ao não esquecimento sobre sua história e seu legado e nos anima a continuar re-existindo e lutando por respostas, rompendo o silêncio sobre o crime que tirou sua vida, mas transformou-a em sementes que germinam por toda (p)arte.

 

Informações:

Local: Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwell, nº 26, Maré (passarela 7 da Av. Brasil, sentido Zona Oeste)

Visitação: de terça a sexta, das 11h às 18h – até 31/08/2019

Agendamento de grupos: contato@museudamare.org.br ou (21) 3868-6748

 

Fontes:

http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/1154-museando-por-ai-1-noticias-de-museus-parceiros

https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2019/04/5637362-professor-da-baixada-fluminense-pinta-vitimas-de-violencia-e-presenteia-familias.html#foto=1

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